domingo, 28 de abril de 2019

La Violetera


Resultado de imagem para plantasVendo plantas nas ruas. De loja em loja, carregando caixas, esteja sol ou chuva. Embora seja desgastante , tem muita coisa a ser aprendida nas ruas. Ensino o que sei sobre plantas, as pessoas me ensinam sobre o que são. Uma das coisas mais importantes que a Umbanda ensina é observar. Observando você aprende e cresce, inevitável. Ontem assistindo uma conversa de um pai de santo em um terreiro, ele pregava sobre a importância do que você vivencia, para poder saber como se faz e até mesmo, mais tarde , ensinar. Me dei conta que hoje se aproveita muito pouco o que vivemos.
Num terreiro você não tem tempo para olhar no celular. E se é médium novo, há muita coisa a se perceber. Quando se dá conta está ali a quatro horas ligado no presente, prestando atenção aos gestos e palavras. Sinceramente, em qual outro lugar você está realmente ligado no que está acontecendo por tanto tempo? A mente divaga muito entre passado e futuro e é dificil aprisionar num momento agora.
Voltando às minhas plantas , mesmo quem não as compra sorri ao vê-las. A beleza da diversidade da Flora é realmente cativante, poucos são os que não se comovem – mas são exatamente estes que me preocupam. Não estar sensível a vida é algo sempre preocupante. Todos os dias ando pelos mais diversos lugares da região metropolitana, são paisagens incríveis, formatos, cores que me entrego a viagem de estar ali. Dentro do ônibus uma legião de cabisbaixos entretidos na rede dispensam a vida lá fora e seguem pessoas. Triste .
Quando nos limitamos nosso olhar há uma mutilação na alma. Não acho a rede de toda ruim, me aproximou de muita gente, me fez ver novos universos, trouxe de fato conhecimento. Como o que realmente se quer dizer vem depois de um “mas”, mas eu acho que não se deve ficar logado 24h.
As suculentas e os cactos fazem parte da minha restauração. Eles se desenvolvem com muito pouco que é oferecido. Uma planta contemplativa da vida, na aridez do tempo. Há algo nelas que realmente encanta, acredito mesmo que possuam uma magia própria que nos fascina. Talvez seja nossa alma dizendo: olha só esta vida frágil , se ela consegue você também.
Alguns umbandistas acham que é fácil e mágico ser médium. Alguns terreiros onde não é necessário fazer nada, facilitam este tipo de pensamento. Não é moleza aprender o que nossa religião oferece para nossa evolução. São horas e mais horas de ouvir entidades, ver incorporações, milhares de velas acendidas, intermináveis flexões para bater a cabeça para que num momento você comece a perceber como as coisas acontecem de fato.
Se você acredita numa Umbanda caritativa, com amor e como nos é passada nos parâmetros do Caboclo das Sete Encruzilhadas, vai se surpreender ao começar entender que em alguns lugares as coisas não são assim. Acredito que alguns umbandistas tenham assistido Game of Thrones demais, pois criam coisas surreais em batalhas por poder e dominação. Lembre-se sempre que Umbanda de verdade é aprendizado, cura e evolução. Resista! Axé!



domingo, 30 de dezembro de 2018

Ogum em 2019

Estes dias nasceu a Carolina. Seus pais, uma filha genuína de Yansã e um de Ogum Beira Mar, certamente darão muitos conhecimentos para esta menininha que nasceu logo após um ano difícil para todos. Da minha parte, neste mundo repleto de coisas materiais maravilhosas para serem feitas de presentes, prefiri deixar aqui umas poucas palavras que possam ser usadas -se couberem- em algum momentoda vida.
Carolina não sei nada deste mundo da Umbanda, mas como o termo do pensador brasileiro Karnal usa cabe bem aqui vou copiar: estou na hierarquia de conhecimento, então aceite e a melhore. Um dos grandes segredos da vida é este: tem gente que sabe mais que você por experiência e isto é ,sem dúvida, um grande trampolim para fazer coisas melhores.
Neste mundo ,minha pequena iniciante, tudo é representado por símbolos e , muito embora eles não sejam reais as pessoas dão muito valor. Vou te falar de algumas coisas da Umbanda , que talvez te ajude a não se perder nela.
Sempre que estiver em um terreiro, feche os olhos discretamente. Tudo que não vê, mas que sente é o verdadeiro.Onde há uma emoção genuína há fé verdadeira, pois ela se origina do amor.Sendo umbandista, em algum momento você vai escutar a palavra demanda e é uma palavra-símbolo para denominar o contrário desta onda de amor: é quando pessoas ficam com medo e assim sendo resolvem julgar e odiar os outros. Não menospreze esta força, mas não lhe dê atenção mais do que necessário. Onde você colocar sua atenção é ali que estará. Prefira sempre a alegria e a coragem.
Uma das primeiras coisas que vai aprender certamente serão números. Não se deixe levar por este símbolo perigoso, pois num determinado momento perceberá que ele domina este mundo e faz com que as pessoas vejam tudo separado. Não existe isto Carolzinha! Quando você observar uma entidade incorporada atendendo um consulente com um cambone do lado, ali estará - e aqui vai o símbolo de novo- um só organismo se curando: o que atende, o atendido, e o observador.Não se deixe enganar: quando um médium falar que a entidade curou alguém, acene e sorria. Na verdade a entidade está tentando curar o médium. Nunca mostre a verdade do mundo espiritual, as pessoas têm o direito de descobrir sozinhas.Nem que doa.
Então, esperta que é, deve estar se perguntando: se é para deixar as pessoas descobrirem sozinhas, por que está me contando? Porque simplesmente, Carolina você vai descobrir outras coisas que não sei e não sei se estarei viva no mesmo plano que você para discutirmos sobre isto. Ah, a morte também é uma mentira do jeito que os homens e mulheres contam, mas é essencial para a evolução.
Você precisará ser forte. Forte para entender , quando estiver triste ou alegre , que não é separada de todo o resto do mundo.Querida você faz parte de tudo, da entidade que recebe, do Orixá que te guia, da doença, da cura, da paz e da guerra, você é a evolução tendo poucos dias ou 80 anos, porque como te disse os números são simbolos enganosos.
Estamos quase entrando na energia de Ogum que regerá o que chamamos de ano. Todos nós abriremos novos caminhos e revisitaremos os que há muito não tem sido percorridos. Sei que pensar pode ser exaustivo Carolina, mas é necessário observar se quer ir a algum lugar.Haverá momentos em que sua atenção se voltará só para seus pés, mas não deixe de ver a paisagem, há segredos nela. Nunca se esqueça : você é co-autora ,não vítima - nunca vítima. Coragem e bom humor minha pequena Carol! Axé 2019!

domingo, 31 de dezembro de 2017

2018 Ano da Lei!

Xango                                                                                                                                                                                 MaisÚltimo dia do ano, ainda vale uma reflexão enquanto não estouram fogos. Você sabia, por exemplo, que alguns cardumes se movem pelas sombras de rios e oceanos para que o sol não reflita suas escamas? Até aí é um reflexo normal de sobrevivência, algo até lógico, mas para por aí. Cientistas alemães descobriram que um peixe sozinho não consegue andar pelas sombras porque simplesmente não sabe o que fazer. Descobriram uma consciência coletiva. Cada membro mantém a distância exata do outro, como se ligados por um fio. Se um está na sombra e outro na luz, este "fio" se tenciona e obriga o peixe perdido voltar à segurança.


E não são só os peixes que agem desta forma. Foi feita uma experiência com formigas cortadeiras. Uma sozinha não tem noção do que fazer. Em conjunto elas têm uma função. Os feromônios indicam o trajeto mais curto até as folhas, que são cortadas ,levadas até o formigueiro onde crescerão fungos nas folhas que alimentarão a todos. Se eventualmente algo aparecer no meio deste caminho, são 6 formigas, de um conjunto imenso, que são responsáveis para retirar os empecilhos. Cada grupo têm uma função, mas isto só é colocado em prática na coletividade, pela consciência que se forma.
Iansa Julia Saccardo see https://www.behance.net/juliasacca6351Só nós não conseguimos entender o que é esta consciência, esta mente pensante da evolução. E por um simples fato: não conseguimos pensar que há algo que nos move, somos seres adeptos do livre arbítrio e isto tem estragado muito nossa visão de mundo. Porque ele não se estende à coletividade e sem a coletividade não sobrevivemos Sinto muito a quem acredita que sozinho pode mudar o mundo.
Se prestarem bem atenção verão que as entidades têm esta consciência coletiva. Em primeiro lugar porque cada nome, por exemplo Tranca Ruas, corresponde a vários espíritos. Um Tranca Ruas aqui pode não corresponder ao mesmo Tranca dali, o que não quer dizer que não façam o mesmo.
Somos separados por denominações dentro de um mesmo terreiro: filhas de Yansã, filhos de Xangô e assim por diante. Mas estamos numa mesma gira embaixo de um mesmo teto.
Um terreiro tem uma movimentação, um direcionamento, uma organização porque simplesmente está sob a mesma Lei da Evolução.Cada um tem uma função específica dentro desta consciência coletiva. Assim como seu corpo que consegue fazer coisas diferentes com os pés e as mãos ao mesmo tempo ,assim funciona um terreiro.Existe a evolução individual? Existe sim mas o propósito é voltar a energia inicial evoluído e assim melhorar a "base". Quem sabe um dia faremos parte destes seres evoluídos que fazem parte da nossa querida Umbanda. Falo estas coisas para que você adquira uma nova consciência e aproveite para observar mais e entender o que é realmente um terreiro. 
O Reino de Exu é composto em sua totalidade por um povo de 18.672.577 Exus, divididos em 7 linhas, nas  falanges, sem contar os Kiumbas exi...
2017 dizem que foi regido por Oxossi/Oxum. Acredito, pois tivemos que sobreviver numa mata fechada dos corações e mente dos humanos. Aprendizado grande que só podia convergir para um outro ano poderoso onde Xangô/Yansã e Exu estarão energeticamente no controle. Não vá pensando que quem fez pra você vai pagar este ano, não funciona assim! Xangô é orixá ,não é mediador de briga de vizinho, mais respeito gente! Xangô é força geradora de evolução, Yansã é executora e Exu dá a exata medida da humanidade. Observe, pense! Axé!



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Fogo, Fé e Evolução!

Estes dias conversava com um pastor evangélico e ele me dizia: Andréa a gente tem que pedir paz! Achei muito estranho. Ué, mas sua religião não prega isto, nem a minha. Jesus não disse que ia trazer paz (“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (Mateus 10:34). Ele teve que concordar. A vida é luta e transformação.
Agora os ateus têm uma igreja na Inglaterra. Cantam, ouvem palestras, meditam sobre sua semana.Não falam mal de religiões, mas de qualquer forma estão professando uma fé. Não adianta, o ser humano é inegavelmente um ser religioso, nem que seja professando a fé de que a fé é a crença em algo que não existe. Sempre temos que combater para continuarmos vivos, ou pelo menos nos sentirmos assim.
Alguém colocou no facebook que teria como desejo ao Papai Noel que os animais não sofressem mais. Achei bonito. Caí na besteira de dizer que queria que as pessoas não sofressem mais, pra quê? Fui chamada de ativista de velhinhos e crianças e um monte de outros blablablás.Minha intenção não era ofender, mas aparentemente foi o que fiz. A década de 2010 é a década dos ofendidos e ofensores.Se não sou a favor sou contra.Oi?
É um tal de EU SOU totalmente inútil. Já falava Paulo Mendes Campos: "viver é falar de corda em casa de enforcado". Gostaria aqui de falar sobre as entidades, as linhas de Umbanda, todo universo que versa nossa religião, mas estaria agredindo até pessoas da nossa própria fé. Reguardo-me ao direito então de analisar fatos.
Estes dias teve um incêndio no Ilè Asè Loiá Tenan , as pessoas perderam seus bens, as paredes de sua história familiar, mas a casa de exu ficou misteriosamente em pé. Matérias tendenciosas e outras maravilhosas saíram na mídia. Alguns ajudaram ,mas muitos julgaram. Fora da religião não preciso falar como espetaram. O problema pior é a reação dos que conhecem.
Uns perguntaram onde estava a mãe de santo na hora (como se ela tivesse o dom de fazer o fogo cessar imediatamente), outros só fizeram perguntas pra saciar a curiosidade e alguns se sentiram semi-deuses como se o que tivesse ocorrido fosse algum castigo divino.Ah esta insondável capacidade humana de elaborar histórias convenientes para a vida e a fé dos outros.
Em meu terreiro Dona Molambo clama por evolução. Não há evolução sem caos. Jesus sabia disto, ascensionados sabem a essência de Deus. A casa de exu se manteve em pé porque sem o caos não há evolução e eles são exatamente isto.
 A tragédia nos torna fortes ,não a aceitação. A aceitação corrompe, a tragédia agrega.Porque nossa essência evolutiva é esta. Quer queiram ou não. Mais uma vez questiono: por que ateus se unem em congregações e porque é  cada vez maior a quantidade de igrejas evangélicas? Porque os primeiros não podem negar sua essência agregatória e os outros devem combater o demônio e tudo que for manifestação que não concordam com eles.
Nós? A nós somos piores. Só posso falar do que sei. é terreiro contra terreiro, barracão contra barracão. Quem é o melhor, quem tem mais médiuns, quem isso ,quem aquilo. Umbanda por exemplo não tem dogma ,mas criaram um ISO 9000 que é uma bandeira que anda circulando por aí dizendo quem é bom e quem não. 
No meio de tanta gente superior vou tentar expor o que eu penso de religião e qual o sentido de entrar em uma, sabedora de que serei criticada, além de otras cositas más. 
Entrar em uma religião é se permitir mudar, usar o fogo da experiência diferente para rever conceitos, alcançar a liberdade de quebrar paradigmas, experimentar o caos. Se engana quem entra para uma religião em busca da prosperidade, da cornucópia dos deuses. Religião é para transformar as águas paradas do espírito, é revolução interna. É o nascimento do Orixá, é a saciedade na palavra viva da entidade. Pai e mãe de santo, Babalorixá e Iyalorixá são seu terreiro ou barracão vivos neste plano, orientadores da sua gira interna de evolução, tudo que está em volta é adereço e mesmo assim eles também estão em evolução- portanto passíveis de erros e mudanças.
Não conheço muita coisa do candomblé -exige muito estudo- mas uma coisa sei: tenham medo de quem sobrevive ao caos porque estes estão ativos na evolução e protegidos pela Lei Maior. Axé!


Dedico este texto à Mãe Lu de Odé. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Pingos nos Is....

Estamos vivendo um caos mental no mundo. Antes de ser uma frase fatídica e carregada de dramaticidade , é um fato. Temos que repensar o que falamos porque fatalmente estaremos indo contra alguma vertente. Medindo palavras, pesando emoções, qualificando pensamentos e tudo isto sem embasamento nenhum - já que ninguém lê mais nada e tudo é medido conforme as tendencias das mídias internetianas.
A Umbanda deve ser vivida, sentida, percebida. Sinceramente não sei como uma pessoa pode fazer um curso online e se achar apta a "dar pitaco' na religião , sem a devida vivência. Umbanda é para ser saboreada in loco .
Temos hoje uma enorme vertente de visões sobre a religião e várias formas de realizar o ritual. Nenhuma está errada, contudo há um ponto em comum entre todas estas formas: a disciplina. Há um movimento pseudo-libertário que diz: sejamos livres na religião. O que significa realmente isto? Não cumprir com suas funções em um terreiro? Não entender como funciona a manipulação de energias?
Já vi médium passando mal e pai de santo dizendo pra acender vela pro anjo da guarda simplesmente. Nada de mexer com elementos da natureza, nada de nada.
Ok, ok vão dizer : Andréa você está sendo muito chata. E estou mesmo. Estes dias uma pessoa que não é da religião me procurou falando que seus vizinhos desenharam pontos em frente a casa e despacharam elementos ali mesmo. Sem disciplina, sem conhecimento e sem instrução adequada médiuns viram neuróticos, adeptos à conspiraneuras (palavra que adotei depois de ouvir um jornalista brilhantemente falando do presidente da Venezuela).
Gente, caridade em Umbanda é também disciplina para aprender. E isso também requer esforço. Tenho uma profunda tristeza ao perceber médiuns que acham que suas entidades são ascensionadas e por consequência eles também. Iluminação exige suor, lágrimas e trabalho, muito trabalho. Está mais próximo da iluminação aquele médium que se dispõe a passar pano no chão do terreiro do que aquele que faz tratados sobre entidades na internet, desculpa se magoo alguém com isto, mas é um fato.
Muitos por aí falam que agem com caridade e não cobram nada. Podem não cobrar em dinheiro, mas ao colocar palavras na boca da entidade em benefício próprio, para que o próximo faça o que se quer , é um tipo de cobrança também. Usar entidade pra melhorar seu relacionamento é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento.
A caridade também está implícita nos "julgamentos". Ao invés de olhar seu irmão de corrente como um ser em evolução como você mesmo,você o toma como muito melhor ou pior, assim como o julgamentos da evolução das entidades. Quem somos nós para dizer que esta ou aquela entidade é melhor ou pior? Se alguém puder afirmar com certeza absoluta que seu caboclo é realmente um índio, que seu erê é realmente uma criança e que seu preto velho é realmente preto ou velho, vejo aí uma evolução enorme. Eu mesma não sei afirmar com 100% de certeza, o que me interessa é que , ao procurar um terreiro, aquele indivíduo tenha a cura almejada. Nada além disto. 
Tantas facilidades na vida tornaram as pessoas ociosas e sem reação. Umbanda é religião de combate, onde há necessidade de observação, atenção e ação. Não entendeu o que está acontecendo na gira? Pergunte!Ao perguntar você aprende e o médium que está incorporado aprende.Ao se interessar por algo que não seja a conversa da entidade do dirigente com um dos irmãos de corrente, com a incorporação do irmão de corrente ou com que o outro faz você evolui. Com o sincero desejo de aumentar seu conhecimento na gira que frequenta certamente a vida espiritual lhe sorrirá. Saravá a todos!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Com a palavra Rotterdam - Mais uma carta aberta ao João


Não há satisfação maior , neste meu mundo, do que poder receber uma carta com conteúdo tão bem pensado e sincero quanto o seu João (vide abaixo a íntegra da resposta dele). Quem não questiona a religião estará fadado a se afogar em um mar de egos alheios, portanto, muito perigoso a qualquer um que venha buscar o mínimo de salvação.
Quando você usa a palavra respeito , a usa com muita propriedade. Respeito vem  do latim respicere , que vem a ser, em tradução literal,  olhar de novo.  E sinto em você esta necessidade de olhar de novo.Se é algo que se deve lançar um novo olhar, a Umbanda é uma religião a que se deve uma consideração e reflexão especial.
 A princípio João a fé em uma religião, seja ela qual for, deve partir da premissa que não conseguiremos responder palpavelmente todas as perguntas, mas seremos fiéis a estas ideias. Difícil isto não é João? Porque envolve pessoas e seus egos escravos que se prendem a seus pés em grossas correntes.
Poucas pessoas eu vi na religião sem estas correntes. Assim como as entidades têm suas legiões, estas pessoas não andam sozinhas em seu caminhar pela loucura. Sempre falo que o Erasmo de Rotterdam deveria , lá pelos idos de 1400, estar falando do que ocorre na Umbanda ) em seu texto Elogio à Loucura (e falo desta religião porque pouco sei do que ocorre nos bastidores de outras,mas não duvido que sejam iguais). Veja se não é idêntico ao processo que esta insensatez religiosa apresenta ,quando Erasmo fala dos fiéis colaboradores da loucura: “Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga(ou seja, a preguiça). E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o sono profundo.”
Sim João somos muito pequenos em relação ao Divino e a toda existência. Quando menor muitas vezes pensei, assim que descobri que existiam células, que a Natureza não é assim tão inovadora, ela repete padrões. E repetindo padrões , assim como somos compostos de bilhões de células, não seríamos nós células do Divino? Pensar é gratuito ainda, então gastei muito tempo pensando nisto e ainda reflito sobre tais coisas alguns dias.
Uma célula é infinitamente pequena aos nossos olhos e dizem que elas são trocadas em nosso corpo – no período de um ano- em quase 95 %. É assombroso! Mais assombroso ainda  João é saber que uma simples célula cancerosa pode matar um corpo forte e vigoroso. Porque elas se reproduzem numa velocidade tal que são capazes de acabar com uma história de vida, assim como ocorreu com meu pai.
Sei bem que a Umbanda anda doente João, mas muitos de nós também. Esta nossa tentativa de estar junto com o Divino faz com que muitos de nós  tenhamos esta sensação de superioridade, onipotência e talvez até seja isto que torne as pessoas células cancerígenas em potencial.

Vou terminar esta extensa missiva explicando o que eu quis dizer quando falei no começo sobre o termo “ o mínimo de salvação”  : no meu entendimento , ser relevante nesta vida é , como o Divino antes da criação, ficar pairando sobre as águas da sabedoria, num ato legitimo de amor monogâmico à Filosofia e com isto multiplicar células fortes o suficiente para resistir a correntes. Saravá!



Desculpe-me João,mas posto aqui sua resposta ao http://coisasdecasados.blogspot.com.br/2016/09/o-gato-de-schrodinger-carta-aberta-ao.html porque acredito que seus questionamentos sejam ao de outros também:
 Asas pra que te quero - uma carta fechada para Andrea                         
 Joao: Então, refletindo muito sobre sua carta e relembrando o possível sobre nossa conversa, quero que você saiba que vai ser muito difícil encontrar alguém que respeite o que vocês fazem como eu respeito, ainda mais lendo sua carta e vendo suas ações de cara limpa, sem o fazer por minha aprovação e sim para servir de lição para quem você inspira, e digo isso mesmo tendo esse meu ceticismo em relação a tudo nesse mundo. 
E justamente por me permitir questionar tenho também a ciência de que não posso ser eu o guardião da verdade, seria incongruente comigo mesmo, sendo assim espero que não pense que o que digo a seguir eu mesmo não possa questionar eventualmente. 
Eu concordo em absoluto contigo que a fé ajuda a dar força para as batalhas que travamos diariamente, especialmente para os mais fracos, mas eu me questiono se ela também não pode ajudar a dar corpo, forma, para atitudes que não são legais, egoístas, em pessoas com moral baixa. A sensação de proximidade com o divino as vezes leva algumas pessoas a se sentirem intocáveis e acho que é aí que mora o perigo, nos levando a imitar Ícaro e desperdiçar uma oportunidade de aproveitar para viver tranquilamente planando pelas tragédias da vida.

Eu cheguei num ponto da vida em que você começa a observar o quanto somos insignificanteS perante a imensidão do universo, e isso vale desde as mesquinharias que somos capazes de pensar e fazer uns aos outros até a insignificância física mesmo. Eu não consigo mais compreender essa necessidade em procurar uma explicação para praticamente tudo o que nos rodeia, e ao mesmo tempo, não parar para observar que na realidade somos nós que rodeamos tudo. Sem dúvidas somos seres de extraordinária inteligência e feitos impressionantes, mas também o é a natureza na sua forma mais pura e simples.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Gato de Schrödinger - Carta Aberta ao João

Não terminamos aquela conversa de ontem sobre fé , João, então resolvi te escrever. Acho justo existirem pessoas que desistem de religiões e até não crerem em nada, o mundo não nos dá muitos motivos mesmo e eu, mesmo sendo mãe de santo, não acho justo "forçar a amizade" obrigando outros a aceitarem como missão seja lá o que for em que acredito. Se eu fosse pastora, freira, seja lá o que estivesse tecido pelas Moiras para meu caminhar ,não agiria de forma diferente.
A liberdade João é uma coisa muito séria e não permite deslizes. Quem não pensa ,pelo menos uma vez por dia, em desistir de tudo,não está fazendo a coisa certa. Viver é definitivamente a arte de acordar todo dia  checar a afiação da espada e ver se alguma coisa faz sentido. Se fizer, se valer, vá atrás. Soldados só desistem da guerra quando ela não faz sentido.
Fiz um acordo com Divino e cara, Ele não brinca, mas é capaz de jogar os dados na nossa cabeça. Você escolhe uma missão e fica nela como se estivesse numa caixa - como o gato do Schrödinger- meio vivo e meio morto.E ,apesar de tudo que escuta João e do que vê, do que o Universo pensa ,o importante é identificar a caixa.
Estou na Umbanda porque identifico a caixa e quero, na menor menção de alguém pedindo ajuda e estendendo a mão para fora,puxar imediatamente. Há caixas perigosas onde há tortura, dor, sofrimento, falta de esperança. Vejo sentido em, mesmo eu sangrando ao final de um combate, ouvir alguém dizer : Eu me levantei finalmente!
Ninguém descreve campos de batalha com flores, sol e brisa fresca. Sempre chove e faz frio, onde há dor e exaustão, onde há guerra, infelizmente, também há os dois lados num mesmo batalhão. Estou na Umbanda para ser livre, mas há os que se aprazem com a escravidão. Hoje mesmo escutei um pedido de uma pessoa umbandista para que eu acendesse uma vela para uma entidade, pedindo para dar um susto num desafeto que não teria cumprido o que prometeu.
João demorei alguns minutos para entender. Fiéis acorrentando seus anjos em prol do que? Guerreamos por vida e não por vingança. Não há um acordo promíscuo entre mim e a religião: jamais falei a qualquer entidade que dou um dia da minha semana para a fé e eles me ressarcem no que eu for pedir. Para mim incorporação não é a mistura café-com-leite: as entidades estão vivas e nós somos aquela metade do gato morto. Quando estou incorporada o tempo não chuta minha caixa e eu posso ficar ali sentada dentro de mim, observando as cores de que não sou capaz de te descrever,mas é tudo tão maravilhosamente claro que as pessoas se tornam livros abertos.
Incorporamos a vida na Umbanda João, e até que o médium consiga abrir os olhos ele ainda procurará por nomes e histórias corriqueiras de outras caixas - porque simplesmente não consegue enxergar algo que não seja parecido.Hoje eu comando um exército, de vivos e meio mortos, e aqui não há medalhas por simpatia, por persistência, nem se ganha prêmios dizendo palavras floreadas. Umbanda é religião de luta.
Nós conseguimos nos levantar João e aquele que não vê sentido na morte dos que amou, na doença que assola seus dias ,na depressão que o leva ao inferno de sentimentos, na tristeza profunda que assola os drogados? Num mundo onde há coisas deste naipe, como é que eu vou ficar quieta? Inquieta-me a falta de esperança e ação, a falta de sonho, a falta de fé em si mesmo. Inquieta-me João uma Umbanda promíscua e prostituída por discípulos e dirigentes. Então te digo, quem está comigo, neste plano, tem que ter disciplina e saber da caixa que o envolve e que terá que sair de lá,mais cedo ou mais tarde. Quem está comigo, mas é de outro plano, sabe que não desisto e que sei do potencial deles: jamais acorrentarei entidades a planos mesquinhos de polir egos.
Vejo inquietação em sua alma, sei que procura onde está Deus nesta roda punk João. Não é justo que quem procura com o amor que você procura, seja cooptado sem ter escolhido as armas ainda. Guerreiros caminham sozinhos em seus pensamentos e forjam sua defesa e seu ataque nas decisões que tomam. Confio em ti. Ogunhê!