domingo, 29 de janeiro de 2012

Metamorfose

Andei meio sumida da civilização. Às vezes, isto é bem necessário para sabermos por onde continuar a andar. Embora não tenha tido contato com ninguém, reciclei minhas idéias sobre a vida e a Umbanda.
Nada e nenhum evento existem por si só. Uma pedra abriga, no lugar em que repousa, uma vida imensa e necessária para alimentar outras vidas. A própria morte é necessária para que desperte a  vida em alguém, assim como a vida abriga em si a possibilidade de repouso eterno para algo. Assim que viemos a este mundo ,embora não pareça a princípio, nos envolvemos numa rede de expectativas e ansiedade com tudo que nos relacionamos,porque fomos alimentados automaticamente dentro do ventre e estivemos acolhidos em águas quentes- tudo perfeito. Então ao encontrar uma pessoa que diga que não cria expectativas com relação a nada, primeiro ela pode ter o dom de fantasiar sobre a realidade e segundo não se deu conta que realmente tem expectativa com relação a si própria: de não criar expectativas em sua relação com o mundo.
Há uma rede muito grande na simplicidade da Umbanda que torna necessária a observação.  Quando se aceita a possibilidade de ser médium, aceita-se também, mesmo que sutilmente, a possibilidade de que seja uma missão assumida antes da reencarnação, e muito provavelmente não se encontre um médium que não pense assim. Não digo que isto é correto, apenas observo isto. Este contrato velado com o Divino, a mediunidade, tem em sua escrita cláusulas que se esperam ser éticas e imutáveis : uma certa regalia na vida por auxiliar o próximo, nem que seja a completa e total proteção do Divino a intempéries próprias da existência.
Como em um namoro, acreditamos no amor recíproco com nossas entidades. A devoção e a lealdade são obviamente recíprocas. Se restringirmos em 180 graus nossa visão, perderemos a noção completa do que é a mediunidade e o relacionamento com os seres espirituais. Quem está a mais tempo na religião sabe o quanto é comum encontrar indivíduos que, apesar de estarem há décadas  professando a mesma fé, desistem de tudo por fatalidades. Não avisar que perderemos entes queridos é considerado falta grave no relacionamento com as entidades, na restrita visão humana, e assim, alguns desistem no meio do caminho sentindo-se traídos.
Como seres humanos nossa visão é parca. Entendemos sim que a morte é, para o mundo espiritual, uma passagem de plano apenas, até que aconteça conosco. Portanto até que se entenda, e se passe adiante, que mediunidade é uma forma para se desenvolver o espírito, no sentido de fazê-lo treinar a visão interna, ninguém terá a segurança de entender a relação do umbandista com as entidades. Todo umbandista que incorpora ou se comunica com as entidades conforme suas habilidades pessoais, está , no mínimo, ligado a quatro tipos de espíritos: o Caboclo, o Preto, a Criança e o Exu. Quatro visões diferentes do mundo para que o médium conheça e estruture sua própria verdade sobre seu espírito. Auxiliar ao próximo, nada mais é do que a possibilidade de ter mais um ponto de reconhecimento desta verdade e nunca uma forma de barganha com o Divino.
Nosso senso de justiça é restrito, pois temos como advogado principal nosso próprio ego, quer aceitemos ou não. É ele quem dita à nossa mente as retribuições devidas a cada ato nosso sobre esta terra. Entretanto, um médium não deve ser um ser resignado, antes tivesse a capacidade de se reconhecer como um pesquisador cujos resultados podem não ser obtidos em uma só vida.
Tudo tem um propósito, até o movimento das nuvens no céu e da lava no interior da terra, quem dirá que não há nos passos de um ser que se diz filho de Deus, provido de uma alma imortal. Só se pode entender o passado no futuro e ele, o futuro, está sempre um passo adiante da nossa idéia no presente. Portanto a única certeza sobre os fatos que pode mudar é a do passado, nunca a do presente, nem tão pouco a do futuro. Ao nascer, o bebê, em seu desespero do nascimento, deve imaginar que outras “desgraças” podem ocorrer além do ar que queima - lhe os pulmões, e daquela sensação de sua pele sendo “lixada”- ao ser enxuto após o primeiro banho, jamais pensaria que o ar é necessário para viver neste mundo e enxugar seu corpo é condição para que não morra de frio. Para um bebê a primeira mamada é o maior milagre do mundo, depois do tenebroso início e alguns anos mais tarde nem lembra este evento. 
Somos lagartas em busca da transformação plena, enquanto caminhamos pelo mundo, seja lá a idade que tenhamos.Enquanto vivos, neste plano, estamos nos transformando. Portanto creio que o melhor meio é buscarmos sempre a nossa própria verdade e não a que é imposta pelo outro. A descoberta da paisagem no meio do caminho e nossa visão sobre ela é que fazem a viagem se tornar inesquecível. Axé a todos!




Nota: Gostaria que vissem, na coluna ao lado, a nota que coloquei sobre a venda do meu ebook. Grata!





quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Milagre na Umbanda

Férias. Creio que deveríamos ter o direito de nos afastar de tudo, uma vez por ano, para descansar e reavaliar (principalmente) nossos caminhos nesta vida. De longe, creio, podemos ver com mais nitidez e enxergando melhor, descobrir as bifurcações que as estradas podem ter. 
Todo umbandista deveria reler a história da criação da religião a cada período de férias. Embora a história nunca mude, nós mudamos o jeito de enxergá-la. Temos o privilégio de, depois de um ano de atuação e aprendizado mediúnico, utilizar o tempo de folga para ponderar sobre a religião, baseados num extenso ano. Primeiro é entender porquê a Umbanda foi criada. A pergunta é uma só, mas a resposta pode ter vários lados e todos verdadeiros. Pode ser como meio mais simples de atender os necessitados, pode ser a forma menos intelectualizada de fazer caridade, dentre tantas outras coisas. A Umbanda é simples e por isso dela jorra amplo entendimento sobre o Divino.
Como toda religião, a Umbanda é baseada na fé. Quando podemos entender todo o processo de qualquer  de qualquer fenômeno, isto deixa de ser religião e passa a ser ciência. Ora, se buscamos uma religião é porque na verdade queremos as benesses da fé, ou seja , os milagres. Aquelas coisas maravilhosas que nos ocorrem sem uma explicação lógica e que nos apontam , que Deus sabe de nossa existência.  O que é milagre para mim, pode não ser para você, e aí está a beleza da vida. Analisar nosso percurso dentro da religião é como olhar um caleidoscópio demoradamente : vamos vendo a cada movimento desenhos novos se formarem.
A Umbanda é a única religião brasileira. Isso é um fato. Assim sendo, até mesmo nesta simples frase há o que pensar. Se somos praticantes de uma religião nova, num país novo, há que se inovar também a mentalidade dos integrantes. Dirigente nenhum tem o direito de dizer isto ou aquilo das outras religiões. Tem que estar ocupado em entender a sua própria forma de ver este "corpo cristalino" que vem se formando pela fé e daí tirar subsídios para compartilhar com os membros de seu próprio Terreiro. Quer falar mal da igreja católica? Retire todas as imagens de santo do congá. Quer criticar o jeito do candomblé? Esqueça os Orixás. 

É tempo de enriquecer a Umbanda. E como se faz isso? Dando voz às entidades. Ensinando médiuns sobre caridade, fé e humildade. E como? Com o próprio exemplo. Antes de fazer uma campanha externa de captação de alimentos e roupas para ajudar alguma comunidade, veja se um dos filhos de corrente não está precisando destas mesmas coisas. O próximo é, invariavelmente aquele que está do nosso lado.
“Vaidade é definitivamente meu pecado favorito” Quem não lembra desta frase do todo poderoso John Milton (em mais uma interpretação inigualável de Al Pacino) em "O Advogado do Diabo"? O maior inimigo de uma pessoa que trabalha com manipulação de energia é a vaidade, sem sombra de dúvida. As virtudes, tanto nas religiões como nas pessoas demoram a crescer, mas , infelizmente, os pontos negativos crescem como mato com raízes fundas, portanto é preciso vigiar sempre.
Tudo é fonte de aprimoramento, quando se está determinado a crescer. Talvez o maior de todos os milagres que existam seja a forma pela qual a crença nos transforma, nos aprimora.  Meu amigo Marcelo Dalla agora há pouco escreveu, num ato de sincronia com o que estava escrevendo: "Não é a crença de alguém que lhe garante nada espiritualmente. É o seu caráter, sua atitude diante das pessoas e da vida." Meu amigo e leitor, é a sua receptividade às mudanças internas, de aprimoramento, que faz com que os melhores e mais necessários milagres pessoais aconteçam. No meio deste caminho, algumas coisas são inevitáveis e alguém, como o chapeleiro de Alice no País da Maravilhas sempre vai te perguntar:  "Por que você está sempre grande demais ou pequena demais?" O importante é sempre saber o que você quer ser e o que espera de sua religião, sabendo que até conseguir o equilíbrio é normal que se caia , às vezes. O importante é saber levantar.
Por mais que tenhamos uma visão perfeita, não enxergamos tudo de uma só vez. Prova disto é a imagem que coloquei aqui neste texto hoje. A fotógrafa canadense, Tara Miller, 39 anos, foi a vencedora do concurso nacional de fotografia promovido pelo Canadian National Institute com a fotografia denominada “Crespúsculo Fortuito”, que relata a aproximação de uma tempestade sobre uma plantação de girassol em um entardecer em Starbuck/Canadá.Miller sofre de glaucoma há 20 anos e tem apenas 10% de sua visão. “Estava tão emocionada e ansiosa para chegar em casa e ver o que havia captado. Rezava para que tudo tivesse saído bem”, declarou sobre o dia que clicou a imagem vencedora.
Cada um , a seu tempo, consegue analisar o que vê com mais clareza. Mantenha-se sempre atento, com a proteção de suas entidades e sob a luz de seu Orixá, quem sabe não acontece com você o milagre de ter captado uma visão única do Divino? Axé para todos!


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Umbanda 2012 - Mensagem Ogum Beira Mar

Centro Espirita Cosme Damião comandado pelo Pai de Santo Paulo Faria,
esta foi uma gira na Praia do Vilatur, no RJ
Pensei em falar muitas coisas nesta postagem. Pedi aos amigos fotos de suas giras.Ia falar como são bonitas as famílias dos pequenos terreiros e que apesar dos problemas, são sólidas na fé, porque não são apenas um número, um conhece bem o outro. Então, senti que não apenas eu, mas seo Beira Mar tinha algo a dizer. Não costumo fazer isto, mas cedi ao meu mentor, porque sei que através dele muitos encontram a luz de que necessitam. Como em toda psicografia que faço, não altero nada em seu conteúdo. Nem tudo está bem claro para mim, pois creio que ainda não tenha conhecimento pleno. Se você ler e quiser postar alguma concepção nova que teve, ou opinião que queira compartilhar será extremamente bem vindo, pois juntos aprenderemos mais. Gostaria que notassem também cada sorriso de cada membro das giras que postei aqui. Ser de Umbanda também é sinônimo de alegria.

Aldeia Mata Virgem comandada pelo Pai de Santo Kiko Codina,
em São Sebastião- São Paulo
" Na qualidade de representante de muitas vozes, externo a todos o carinho e o amor divino que nos enlaça na Umbanda. Esta religião, criada em comum acordo entre seres de vários planos tem particularidades que devem ser pensadas. Uma delas é  a sua necessidade de uma corrente vibratória, tanto interna (médiuns), quanto externa (assistência). A partir da formação desta comunidade é que se desenrolam todas as funções espirituais de uma casa. Apesar desta aparência, a Umbanda também foi criada com outra necessidade, ou função, não menos importante que prestar assistência ao próximo.
Na qualidade de Ogum, a Umbanda foi criada para  proporcionar um caminho claro a cada ser, a cada indivíduo e assim, com a possibilidade de trilhar pela luz do conhecimento favorecer os que estão próximos.
Esta turma é do Centro Espiríta de Umbanda Ogum Mege e Oxum do Mar  comandado
pelos Pais de Santo  Eriich A. dos Santos Silva  e Celina Moreno Filgueiras ,
em São Gonçalo/RJ

Na qualidade de Yemanjá, foi criada para mostrar ao indivíduo que do mar da Criação Divina sempre poderá encontrar um meio de se renovar e crescer em harmonia com sua Origem.
Na qualidade de Oxum, foi estabelecida a religião na qual cada um tenha a possibilidade de enxergar em seu próximo a centelha Divina que há em si próprio, bem como a interligação de todos os seus atos refletidos no espelho das intenções do Criador.
Na qualidade de Yansã, a Umbanda firma no indivíduo a visão do Tempo como aliado às suas realizações íntimas de transformação, no vórtice da caridade plena, no momento em que consegue visualizar que é na base de seu ser que há uma fonte de onde jorra toda e qualquer energia de que necessite.
Na qualidade de Xangô, a religião dos mais simples, ensina ao adepto que é na falta de orgulho pessoal que há a verdadeira fortaleza , onde mal algum penetra.
Na qualidade de Oxóssi, a verdadeira Umbanda mostra a todo ser que busque a verdade, que ela está ,invariavelmente na alegria de cada fração de tempo vivida em harmonia com a sua própria natureza.
Na qualidade de Omoluh e Nanã, há a condição do ser descobrir os grandes mistérios do nascer e morrer, da reencarnação, dos propósitos mais íntimos do espírito e a realidade em que está embasada toda a fé.
Um delicioso café da manhã no
 Centro Espiríta de Umbanda Ogum Mege e Oxum do Mar 
Na qualidade de Oxalá, por fim, aquele que escolheu a Umbanda como morada há de descobrir que a felicidade é um meio e não um fim de sua busca pela integração com o Divino.
Falo a quem tem ouvidos na alma, a quem busca socorrer antes de pedir socorro, a quem sabe que a missão a que se determinou é anterior à esta vida. Estejamos todos em harmonia com a Luz Divina que vem de dentro, sob a eterna benção dos Orixás."
Caboclo de Ogum Beira Mar.




Finalizando , gostaria de desejar a todos um ótimo 2012, com a consciência de que é na individualidade que entramos em contato com os Orixás e nossos mentores espirituais. Faço uso desta foto linda do Alexandre Cumino, num "papo especial" com Xangô. Saravá a todos, Saravá 2012!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Orixá de 2012

Conheci uma senhora, há alguns anos atrás, que me falava em sua sabedoria de benzedeira, que só podemos dizer que conhecemos um pouco alguém  depois de ter comido juntos uma arroba de sal, cada um. Uma arroba pra quem não sabe é aproximadamente 15 quilos, e devemos consumir somente 5 gramas por dia de tal elemento. São quase três mil dias, um tempo considerável.
Alguns dias atrás comecei a pensar sobre o próximo ano - o tão falado 2012- , iniciando meu planejamento.Como algumas pessoas me perguntaram o que elas podem esperar, achei justo perguntar a um legítimo representante do tempo: um caboclo de Xangô. Com caneta e papel na mão ,fui buscar a resposta numa gira de Umbanda, numa quarta feira à tarde, no Terreiro do Pai Maneco. A gira conduzida pela Mãe Elirian Mirian de Souza Britto, ou simplesmente Mãe Eli de Xangô. Tive o imenso prazer de ser uma das últimas a ser atendida, porque pude observar mais atentamente o desenrolar da gira comandada pelo Caboclo da Pedra Roxa, representante de Xangô. A preocupação deste caboclo com cada um que estava sendo atendido e com a assistência me emocionaram. Vi, entre outras coisas, ele chamar da assistência uma mãe com um bebê com Síndrome de Down, perguntando se ela já havia sido atendida, enquanto a criança sorria para a energia Divina que estava ali em sua frente.
Xangô é detentor da Justiça Divina porque, em meu entendimento, ele sabe que todos nós somos pedra bruta e que cada um tem a propriedade de se auto-lapidar com aprendizado, fé,amor e caridade. Ele nos mostra este caminho, que não tem nada a ver com a justiça dos homens. Finalmente sentada na frente desta entidade perguntei qual seria o foco mais importante para o próximo ano, pois as pessoas por vezes precisam de algum norteamento para suas vidas.
Muito sério, o Caboclo da Pedra Roxa olhou em meus olhos e disse: " Diga às pessoas que parem de pensar que não têm tempo. Tudo hoje tem que ser muito rápido para elas, inclusive e principalmente os relacionamentos. Ficam um pouco juntos e ,sem pensar já montam uma família, que é lógico em pouco tempo se desfaz.Gostam de construir suas bases na areia e o mar leva tudo que construíram, porque não pensam no lugar certo de montar suas próprias casas. Se acham que o tempo é rápido demais, que façam uma experiência: sentem-se no chão, sem fazer absolutamente nada e vejam o quanto demora a passar."
Tudo o que temos nesta vida é baseado no tempo que nos dispomos para vivenciar. Para convivermos com pessoas que amamos, independente do tipo de relacionamento, temos que ter o tempo como aliado na construção das bases de algo que pode ser para a vida inteira. Esta história de que os opostos se atraem é besteira. Sempre vamos buscar algo parecido com o que houver dentro de nós mesmos. Relacionamentos sejam eles quais forem são pedras que são lapidadas muito, mas muito lentamente. É na alegria de dividir a refeição, nas "brigas" para dividir as contas, no tempo gasto para escutar os sonhos do outro, ou simplesmente no ato de ficar juntos, em alguns momentos, sem falar nada, dentre tantas outras coisas, que construímos os elos mais fortes.
Quem tem filhos sabe que é no dia-a-dia que descobrimos quem é este ser que geramos. Não vai ser nem no primeiro, nem no segundo ano de vida da criança que saberemos profundamente como aquele espírito que está dividindo a vida conosco vê a vida. E assim também ocorre com aqueles que não têm o nosso sangue. Temos o dever sim de amar a todos incondicionalmente, porque amando respeitamos e entendemos que todos têm direito à diversidade de pensamentos, mas isto também leva tempo para aprender. Impor um ritmo acelerado para conhecer o próximo e amá-lo é construir sobre a areia.
Embora acredite que cada energia Orixá existente se manifesta na vida das pessoas conforme as necessidades individuais, peço que adotem as palavras do caboclo de Xangô - seo Pedra Roxa- como ato de caridade para 2012 - pois se nos movermos pelo tempo com respeito -a nós e ao próximo- este ano será sim um marco do fim de uma era de ansiedade, para o início de uma vida mais plena. Kaô Cabecillé.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Guerra Santa

Às vezes , me dá uma vontade de colocar o mundo no colo e, delicadamente, com uma lixa de unha, aparar algumas arestas. Creio que todo mundo tem este desejo. Nossa este ano passou tão depressa - um amigo um dia me falou. Então, expliquei que quando se conhece o caminho ele fica aparentemente mais curto, assim ,na medida que os anos passam, nós sabemos - mais ou menos- o que teremos pela frente. Sabemos que alegrias e tristezas se sucedem e nenhuma delas é para sempre. O que fazemos com estas experiências sim, é o que importa realmente e que torna qualquer espaço - físico ou de tempo-mais suave.
Na última segunda-feira, estava assistindo o SBT Repórter. Não assisti inteiro, mas o que vi foi o suficiente para me vir a tal vontade de aparar arestas. O programa era dedicado à desvendar os mistérios da ‘Bahia de Todos os Santos’. Mostraram uma senhora , filha de Yansã - adepta do candomblé- fazendo seu acarajé para a venda. Acarajé é  uma comida dedicada à este Orixá. Como contra-ponto a entrevista mostrou numa outra parte de Salvador, uma igreja evangélica que colocou uma barraquinha em frente ao seu templo para vender os "bolinhos de Jesus" - que nada mais era que o próprio acarajé. Um outro pastor - evangélico também - brilhantemente discursou sobre a falta de ética de tal procedimento, como de outros em que igrejas entoam em atabaques nos ritmos consagrados a Yemanjá, Oxum ,Yansã com coreografias dedicadas a Jesus.
Quer queiram ou não, o Brasil é a terra dos Orixás, pois como diria a música é abençoado por Deus e bonito por natureza. Cada um têm o direito indiscutível de acreditar e ver Deus da maneira que mais o apraz. Nunca ,em tempo nenhum, veremos o mundo movido por uma fé única, porque é na diversidade de credos que ele foi moldado. Porém, tenho observado correntes religiosas de diferentes filosofias proferindo uma necessidade única: a Ética.
Poderíamos sim, ter um código de Ética único, talvez isto seja viável, muito embora creia que uma pessoa que serve ao Divino não precisasse disto. Prioridades como o atendimento espiritual aos doentes e desvalidos, aos que buscam força e consolo, não precisassem de normativa nenhuma.A ética não deve ser confundida com a lei, embora com certa frequência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética. Lobos disfarçados de cordeiros têm a capacidade de disparar algo que qualifico como mais uma guerra santa, e ela está tomando proporções assustadoras. Conforme um link que uma amiga me enviou (que coloco à disposição abaixo do texto) diz que dados preliminares do estudo "Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana no Rio de Janeiro", que identificou 847 templos, revelam que 451 - mais da metade - foram vítimas de algum tipo de ação que pode ser classificada como intolerância em razão da crença ou culto.
Vou um pouco mais além. Quem entra em uma religião - seja qual for- vai porque necessita de algo que ela proporciona. Na Umbanda as pessoas vão pela dor - da alma ou do corpo - ou pelo amor. Depois que passa o período inicial e , se for o caso, há um desenvolvimento mediúnico. Pela fé e pelo amor ao ser humano nos entregamos como mensageiros de entidades evoluídas. Esta comunhão entre nós médiuns e entidades, impulsionados pela fé no Divino - Zambi - faz com que tenhamos forças para aprender e manipular energias da natureza para várias finalidades - principalmente para quem precisa de algum tipo de cura.
Ontem em um atendimento - e faço questão de frizar que foi incorporada com o exu Capa Preta (linha que é estigmatizada por leigos) ouvi uma verdade indiscutível, proferida a um consulente: o orgulho é a porta larga por onde entra tudo que é ruim e destrói tudo que as pessoas possam ter conquistado. 
Umbandista que faz distinção em seus atendimentos, por pré julgamento , pré conceito está na religião errada. Um Terreiro sempre tem que ter as portas abertas a qualquer um que venha pedir ajuda e todos os que pedem têm que ter o mesmo tratamento. E isto não está condicionado ao espaço material. Na medida em que há um bom desenvolvimento mediúnico, uma boa comunicação entre médium e entidade,e que todo o trabalho feito tem um resultado positivo, não pode ser , de forma alguma, um motivo de júbilo pessoal.Assim como o pai ou mãe de santo que ao ver que sua gira tem resultados positivos tem que entender que é por mérito do conjunto e não apenas do esforço individual. 
Fico feliz quando ouço histórias de pessoas que através da fé na Umbanda, junto sempre com tratamentos médicos profissionais, curaram-se de doenças terríveis. Assim como me deixa feliz saber que os que passam necessidades materiais encontraram a dignidade  em novos empregos e até aqueles que encontram consolo e aprendizado em minha fé. Porém nada disto faz com que eu sinta orgulho, porque sei que logo em seguida virá alguém com algum outro problema a ser resolvido e o tempo que se gasta alisando velhas medalhas de honra é o mesmo que se pode usar fazendo caridade.
Umbandista de fé e coração não precisa agradar ninguém, precisa é aprender para curar. E quanto mais andamos por estas estradas de Ogum e vemos pessoas buscando ajuda, mais precisamos ficar conscientes para não cair nas armadilhas de nossos próprios egos, em cada vitória ou derrota. Creio que o entendimento deva ser a palavra mais importante que um umbandista deva carregar em sua mente do que a palavra merecimento. Porque não somos aptos a enxergar o merecimento, mas temos sim o dever de ter um bom entendimento- que levará a uma ação mais eficaz. Saravá! 

O link citado acima: 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ogan Toca pra Yansã

Fui pendurar minhas roupas no varal. Não, não sou e nem quero o título de rainha do lar. Ninguém que não goste disto merece. Enfim, estava lá eu quando ouvi um piado "nervoso" e insistente. Era um pica-pau reclamando e isto não é normal, acreditem. De repente aparecem umas cinco aratacas gritando e brigando entre si. Duas entraram em "vias de fato" e caíram no chão, logo alçando vôo novamente. De fato nunca se sabe se as aratacas e as crianças estão brigando ou brincando, são muito parecidas. Assim que foram embora o pica-pau parou de reclamar e voltou à sua função. Então o que se presume desta história? Que não nasci para trabalho doméstico, porque tudo na natureza é passível de reflexão. Adoro observar a natureza, inclusive das pessoas.
Não há como escrever de Umbanda, ou qualquer outra coisa que toque a alma das coisas e das pessoas sem observação. Um belo dia, minha amiga a Rosany Azevedo Costa , começa a me chamar de Griot. Qualquer pessoa com mais de 40 anos já foi chamada de muitas coisas, e fui lá eu buscar informação sobre o assunto. Vi e achei: era muito pra mim. Mas o vento tanto leva as coisas para longe como traz de volta. Depois de passar uma parte da tarde sentindo uma vibração maravilhosa de Yansã no Terreiro, vem uma pessoa e me coloca nas mãos o livro: Mãe África: História da África Subsaariana- Dora Martins Dias e Silva.
E estava lá um capítulo inteiro dedicado aos Griots - Os Contadores de História. Na África é através destes artistas que se mantém a história e ela é divulgada de geração a geração. E foi por conta disto que se manteve geração após geração a história dos negros na Africa Ocidental. É muito comum no candomblé que se entenda como funcionam as energias através das lendas por exemplo, porque uma história é sempre mais fácil de guardar. Então fiquei pensando, talvez isto seja eu, talvez esta seja também minha função só que na Umbanda.
Os Griots também recebem o nome de Djélis , nome que provém da palavra sangue, pois é uma função passada de pai para filho, e as mulheres também fazem parte disto. Geralmente os Griots casam-se com outros Griots, embora possam se casar com não-contadores de história - mas estes nunca podem assumir a função.Um griot é formado por seu pai , que lhe conta várias histórias desde criança, e assim é formado. Ao crescer aprende a acrescentar novas informações observando o mundo de uma forma geral. Meu avô foi um grande contador de histórias, meu pai ainda é. E eu ouvindo tudo isto me acostumei, não vejo a vida de outra forma.Falo tantos "eus" que me sinto constrangida até, mas é para que você saiba que quando o ogan toca para Yansã, os ventos trazem o que você é de fato. Pode acontecer hoje, pode ser amanhã, mas um dia acontece. Até lá a paciência e a alegria, com uma pitada de esforço talvez sejam necessárias.Não desanime.
A diferença que tenho com os Griots é que você não gostaria de me ouvir cantando meus textos, ou transformando-os em trovas. Acho perigoso esta coisa de rimar. Gostaria mesmo de falar pessoalmente, de um por um o que acho da vida e da Umbanda. Os Griots acham que é na respiração de quem carrega a história que está a magia. A minha respiração está aqui e sei que muitos a sentem, pelos comentários que recebo, embora às vezes "trave a quentura da voz humana" a internet é um bom meio de publicar histórias.
Os Griots não enterravam seus mortos, eles os depositavam no interior dos Baobás. Como uma Griot moderna, sou doadora de todos os meus orgãos ,então de certa forma serei depositada no interior de um ser que andará por aí, espero que mais feliz.
Hoje agradeço a Rosany mais uma vez, que como diria uma cigana, lá da região Andaluza, veio e me deu uma buena dicha. Então distribua você também que me lê, uma boa palavra. Saravá!



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Entre Tutu Marambá e o Axé

Foto de uma ama negra em Salvador-1870 autor desconhecido
Tutu Marambá não venhas mais cá, Que o pai do menino te manda matar ... Existem muitas variações nesta cantiga de ninar bem antiga, mas o Tutu Marambá ou Marambaia é o mesmo. Pra quem nunca ouviu falar, esta cantilena foi criada pelas amas negras , no tempo da escravidão, para fazer com que os meninos e meninas brancos que cuidavam dormissem logo e pudessem descansar. Tutu é um termo da nação africana, provavelmente de Angola que representa sempre o monstro - o bicho-papão. Maramba ou Marambaia é um termo indígena associado.  Estas lindas amas negras, inegavelmente compositoras espertas, associaram ainda às cantilenas infantis elementos de sua religião, disfarçados nos santos católicos. Uma musiquinha que cantava sem parar na minha infância era: "São João Da Ra Rão,Tem uma gaita-ra-rai-ta,Que quando toca-ra-roca,Bate nela..." era cantada pelas negras para crianças mas também era uma espécie de oração para Xangô, assim também como esta outra música: "Capelinha de Melão é de São João,É de Cravo é de Rosa é de Manjericão..."
Havia cantos infantis para tudo, um meio de invocar as energias da natureza. Um específico para cura, na linha de Oxóssi: "Pelas vossas chagas,Pela vossa cruz,Livrai-nos da peste,Senhor Bom Jesus.Glorioso Mártir
São Sebastião,Livrai-nos da peste,São Sebastião." Cuidando dos filhos dos patrões, não havia como não se afeiçoar a eles. E quem vê a Umbanda de fora pode até achar estranho em uma gira ver espíritos de pretos e de algumas crianças brancas trabalhando, mas no fundo tem uma lógica. Estas crianças viram suas amas benzendo, costurando e curando com seus Orixás. E como o poder de armazenamento mental dos pequenos é grande, aprendiam tudo muito rápido. É lógico que uma criança na Umbanda vem com uma energia muito maior porque é um espirito que tem na verdade centenas de nossos anos neste plano.
Estou chegando num ponto de visão da Umbanda que me emociono com muitas coisas. Estes dias vendo nosso membro de corrente , o querido João de apenas sete anos tocando atabaque com alegria indisfarçável, me comoveu. O acantonamento da Mocidade da Umbanda no Terreiro do Pai Maneco me encheu de felicidade, só de pensar na alegria deles juntos dormindo em frente ao congá, nossa fonte de energia e alegria continuamente acessa em nossos corações. A formação destes jovens, sem medo de repreensões como havia no passado,com base na fé, no amor e na caridade sem dúvida transformará esta nossa religião de combate muito mais alicerçada e enraizada no bem maior.
Ainda temos muito chão pela frente na Umbanda e ele tem que ser caminhado com os pés descalços, para que sintamos cada pequena pedra, que deverá ser retirada da estrada para o caminhar dos mais novos. Sou fã do Alexandre Cumino, grande incentivador e propagador de nossa religião. Tudo que ele posta eu replico para minha página do facebook. Porém, a fonte onde bebo brota na Umbanda Pés no Chão do Pai Fernando e gostaria de fazer uma colocação baseada na minha interpretação pessoal, e espero que ao ler isto Cumino entenda que não é só para você, mas para todos refletirem.
Ontem vi uma frase sua, que muitos postaram depois de um curso seu: "A Umbanda é predadora natural da magia negra." É uma frase avulsa, fora de um contexto ,mas em minha opinião é contrária à Umbanda. Somos uma Umbanda de diversos rituais diferentes, idéias diferentes de como funciona o mundo espiritual, mas nossa proposição é a mesma: atingir com fé o propósito da caridade pelo amor ao próximo. Temos muitas batalhas sim, somos lutadores em potencial, mas não predadores de magia negra, porque não nos alimentamos dela. Os predadores na natureza vão atrás do que os alimenta. Nós nos alimentamos da Luz Divina e é com ela que alimentamos quem precisa de consolo, de um pouco mais de fé, de força.
Meu propósito hoje é de dizer a todos que trabalham com os jovens e crianças, que tudo o que fizerem a eles vai ser replicado no futuro,com uma potencialidade muito maior, mais aprimorada. Vou ser sincera: eu tinha medo do Tutu Marambá. Hoje meus filhos para terem medo do Tutu  tenho que dizer que ele é ladrão de playstation. As coisas mudam. Umbanda é pra umbandista, pra quem gosta de axé.