sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Umbanda 2012 - Mensagem Ogum Beira Mar

Centro Espirita Cosme Damião comandado pelo Pai de Santo Paulo Faria,
esta foi uma gira na Praia do Vilatur, no RJ
Pensei em falar muitas coisas nesta postagem. Pedi aos amigos fotos de suas giras.Ia falar como são bonitas as famílias dos pequenos terreiros e que apesar dos problemas, são sólidas na fé, porque não são apenas um número, um conhece bem o outro. Então, senti que não apenas eu, mas seo Beira Mar tinha algo a dizer. Não costumo fazer isto, mas cedi ao meu mentor, porque sei que através dele muitos encontram a luz de que necessitam. Como em toda psicografia que faço, não altero nada em seu conteúdo. Nem tudo está bem claro para mim, pois creio que ainda não tenha conhecimento pleno. Se você ler e quiser postar alguma concepção nova que teve, ou opinião que queira compartilhar será extremamente bem vindo, pois juntos aprenderemos mais. Gostaria que notassem também cada sorriso de cada membro das giras que postei aqui. Ser de Umbanda também é sinônimo de alegria.

Aldeia Mata Virgem comandada pelo Pai de Santo Kiko Codina,
em São Sebastião- São Paulo
" Na qualidade de representante de muitas vozes, externo a todos o carinho e o amor divino que nos enlaça na Umbanda. Esta religião, criada em comum acordo entre seres de vários planos tem particularidades que devem ser pensadas. Uma delas é  a sua necessidade de uma corrente vibratória, tanto interna (médiuns), quanto externa (assistência). A partir da formação desta comunidade é que se desenrolam todas as funções espirituais de uma casa. Apesar desta aparência, a Umbanda também foi criada com outra necessidade, ou função, não menos importante que prestar assistência ao próximo.
Na qualidade de Ogum, a Umbanda foi criada para  proporcionar um caminho claro a cada ser, a cada indivíduo e assim, com a possibilidade de trilhar pela luz do conhecimento favorecer os que estão próximos.
Esta turma é do Centro Espiríta de Umbanda Ogum Mege e Oxum do Mar  comandado
pelos Pais de Santo  Eriich A. dos Santos Silva  e Celina Moreno Filgueiras ,
em São Gonçalo/RJ

Na qualidade de Yemanjá, foi criada para mostrar ao indivíduo que do mar da Criação Divina sempre poderá encontrar um meio de se renovar e crescer em harmonia com sua Origem.
Na qualidade de Oxum, foi estabelecida a religião na qual cada um tenha a possibilidade de enxergar em seu próximo a centelha Divina que há em si próprio, bem como a interligação de todos os seus atos refletidos no espelho das intenções do Criador.
Na qualidade de Yansã, a Umbanda firma no indivíduo a visão do Tempo como aliado às suas realizações íntimas de transformação, no vórtice da caridade plena, no momento em que consegue visualizar que é na base de seu ser que há uma fonte de onde jorra toda e qualquer energia de que necessite.
Na qualidade de Xangô, a religião dos mais simples, ensina ao adepto que é na falta de orgulho pessoal que há a verdadeira fortaleza , onde mal algum penetra.
Na qualidade de Oxóssi, a verdadeira Umbanda mostra a todo ser que busque a verdade, que ela está ,invariavelmente na alegria de cada fração de tempo vivida em harmonia com a sua própria natureza.
Na qualidade de Omoluh e Nanã, há a condição do ser descobrir os grandes mistérios do nascer e morrer, da reencarnação, dos propósitos mais íntimos do espírito e a realidade em que está embasada toda a fé.
Um delicioso café da manhã no
 Centro Espiríta de Umbanda Ogum Mege e Oxum do Mar 
Na qualidade de Oxalá, por fim, aquele que escolheu a Umbanda como morada há de descobrir que a felicidade é um meio e não um fim de sua busca pela integração com o Divino.
Falo a quem tem ouvidos na alma, a quem busca socorrer antes de pedir socorro, a quem sabe que a missão a que se determinou é anterior à esta vida. Estejamos todos em harmonia com a Luz Divina que vem de dentro, sob a eterna benção dos Orixás."
Caboclo de Ogum Beira Mar.




Finalizando , gostaria de desejar a todos um ótimo 2012, com a consciência de que é na individualidade que entramos em contato com os Orixás e nossos mentores espirituais. Faço uso desta foto linda do Alexandre Cumino, num "papo especial" com Xangô. Saravá a todos, Saravá 2012!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Orixá de 2012

Conheci uma senhora, há alguns anos atrás, que me falava em sua sabedoria de benzedeira, que só podemos dizer que conhecemos um pouco alguém  depois de ter comido juntos uma arroba de sal, cada um. Uma arroba pra quem não sabe é aproximadamente 15 quilos, e devemos consumir somente 5 gramas por dia de tal elemento. São quase três mil dias, um tempo considerável.
Alguns dias atrás comecei a pensar sobre o próximo ano - o tão falado 2012- , iniciando meu planejamento.Como algumas pessoas me perguntaram o que elas podem esperar, achei justo perguntar a um legítimo representante do tempo: um caboclo de Xangô. Com caneta e papel na mão ,fui buscar a resposta numa gira de Umbanda, numa quarta feira à tarde, no Terreiro do Pai Maneco. A gira conduzida pela Mãe Elirian Mirian de Souza Britto, ou simplesmente Mãe Eli de Xangô. Tive o imenso prazer de ser uma das últimas a ser atendida, porque pude observar mais atentamente o desenrolar da gira comandada pelo Caboclo da Pedra Roxa, representante de Xangô. A preocupação deste caboclo com cada um que estava sendo atendido e com a assistência me emocionaram. Vi, entre outras coisas, ele chamar da assistência uma mãe com um bebê com Síndrome de Down, perguntando se ela já havia sido atendida, enquanto a criança sorria para a energia Divina que estava ali em sua frente.
Xangô é detentor da Justiça Divina porque, em meu entendimento, ele sabe que todos nós somos pedra bruta e que cada um tem a propriedade de se auto-lapidar com aprendizado, fé,amor e caridade. Ele nos mostra este caminho, que não tem nada a ver com a justiça dos homens. Finalmente sentada na frente desta entidade perguntei qual seria o foco mais importante para o próximo ano, pois as pessoas por vezes precisam de algum norteamento para suas vidas.
Muito sério, o Caboclo da Pedra Roxa olhou em meus olhos e disse: " Diga às pessoas que parem de pensar que não têm tempo. Tudo hoje tem que ser muito rápido para elas, inclusive e principalmente os relacionamentos. Ficam um pouco juntos e ,sem pensar já montam uma família, que é lógico em pouco tempo se desfaz.Gostam de construir suas bases na areia e o mar leva tudo que construíram, porque não pensam no lugar certo de montar suas próprias casas. Se acham que o tempo é rápido demais, que façam uma experiência: sentem-se no chão, sem fazer absolutamente nada e vejam o quanto demora a passar."
Tudo o que temos nesta vida é baseado no tempo que nos dispomos para vivenciar. Para convivermos com pessoas que amamos, independente do tipo de relacionamento, temos que ter o tempo como aliado na construção das bases de algo que pode ser para a vida inteira. Esta história de que os opostos se atraem é besteira. Sempre vamos buscar algo parecido com o que houver dentro de nós mesmos. Relacionamentos sejam eles quais forem são pedras que são lapidadas muito, mas muito lentamente. É na alegria de dividir a refeição, nas "brigas" para dividir as contas, no tempo gasto para escutar os sonhos do outro, ou simplesmente no ato de ficar juntos, em alguns momentos, sem falar nada, dentre tantas outras coisas, que construímos os elos mais fortes.
Quem tem filhos sabe que é no dia-a-dia que descobrimos quem é este ser que geramos. Não vai ser nem no primeiro, nem no segundo ano de vida da criança que saberemos profundamente como aquele espírito que está dividindo a vida conosco vê a vida. E assim também ocorre com aqueles que não têm o nosso sangue. Temos o dever sim de amar a todos incondicionalmente, porque amando respeitamos e entendemos que todos têm direito à diversidade de pensamentos, mas isto também leva tempo para aprender. Impor um ritmo acelerado para conhecer o próximo e amá-lo é construir sobre a areia.
Embora acredite que cada energia Orixá existente se manifesta na vida das pessoas conforme as necessidades individuais, peço que adotem as palavras do caboclo de Xangô - seo Pedra Roxa- como ato de caridade para 2012 - pois se nos movermos pelo tempo com respeito -a nós e ao próximo- este ano será sim um marco do fim de uma era de ansiedade, para o início de uma vida mais plena. Kaô Cabecillé.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Guerra Santa

Às vezes , me dá uma vontade de colocar o mundo no colo e, delicadamente, com uma lixa de unha, aparar algumas arestas. Creio que todo mundo tem este desejo. Nossa este ano passou tão depressa - um amigo um dia me falou. Então, expliquei que quando se conhece o caminho ele fica aparentemente mais curto, assim ,na medida que os anos passam, nós sabemos - mais ou menos- o que teremos pela frente. Sabemos que alegrias e tristezas se sucedem e nenhuma delas é para sempre. O que fazemos com estas experiências sim, é o que importa realmente e que torna qualquer espaço - físico ou de tempo-mais suave.
Na última segunda-feira, estava assistindo o SBT Repórter. Não assisti inteiro, mas o que vi foi o suficiente para me vir a tal vontade de aparar arestas. O programa era dedicado à desvendar os mistérios da ‘Bahia de Todos os Santos’. Mostraram uma senhora , filha de Yansã - adepta do candomblé- fazendo seu acarajé para a venda. Acarajé é  uma comida dedicada à este Orixá. Como contra-ponto a entrevista mostrou numa outra parte de Salvador, uma igreja evangélica que colocou uma barraquinha em frente ao seu templo para vender os "bolinhos de Jesus" - que nada mais era que o próprio acarajé. Um outro pastor - evangélico também - brilhantemente discursou sobre a falta de ética de tal procedimento, como de outros em que igrejas entoam em atabaques nos ritmos consagrados a Yemanjá, Oxum ,Yansã com coreografias dedicadas a Jesus.
Quer queiram ou não, o Brasil é a terra dos Orixás, pois como diria a música é abençoado por Deus e bonito por natureza. Cada um têm o direito indiscutível de acreditar e ver Deus da maneira que mais o apraz. Nunca ,em tempo nenhum, veremos o mundo movido por uma fé única, porque é na diversidade de credos que ele foi moldado. Porém, tenho observado correntes religiosas de diferentes filosofias proferindo uma necessidade única: a Ética.
Poderíamos sim, ter um código de Ética único, talvez isto seja viável, muito embora creia que uma pessoa que serve ao Divino não precisasse disto. Prioridades como o atendimento espiritual aos doentes e desvalidos, aos que buscam força e consolo, não precisassem de normativa nenhuma.A ética não deve ser confundida com a lei, embora com certa frequência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética. Lobos disfarçados de cordeiros têm a capacidade de disparar algo que qualifico como mais uma guerra santa, e ela está tomando proporções assustadoras. Conforme um link que uma amiga me enviou (que coloco à disposição abaixo do texto) diz que dados preliminares do estudo "Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana no Rio de Janeiro", que identificou 847 templos, revelam que 451 - mais da metade - foram vítimas de algum tipo de ação que pode ser classificada como intolerância em razão da crença ou culto.
Vou um pouco mais além. Quem entra em uma religião - seja qual for- vai porque necessita de algo que ela proporciona. Na Umbanda as pessoas vão pela dor - da alma ou do corpo - ou pelo amor. Depois que passa o período inicial e , se for o caso, há um desenvolvimento mediúnico. Pela fé e pelo amor ao ser humano nos entregamos como mensageiros de entidades evoluídas. Esta comunhão entre nós médiuns e entidades, impulsionados pela fé no Divino - Zambi - faz com que tenhamos forças para aprender e manipular energias da natureza para várias finalidades - principalmente para quem precisa de algum tipo de cura.
Ontem em um atendimento - e faço questão de frizar que foi incorporada com o exu Capa Preta (linha que é estigmatizada por leigos) ouvi uma verdade indiscutível, proferida a um consulente: o orgulho é a porta larga por onde entra tudo que é ruim e destrói tudo que as pessoas possam ter conquistado. 
Umbandista que faz distinção em seus atendimentos, por pré julgamento , pré conceito está na religião errada. Um Terreiro sempre tem que ter as portas abertas a qualquer um que venha pedir ajuda e todos os que pedem têm que ter o mesmo tratamento. E isto não está condicionado ao espaço material. Na medida em que há um bom desenvolvimento mediúnico, uma boa comunicação entre médium e entidade,e que todo o trabalho feito tem um resultado positivo, não pode ser , de forma alguma, um motivo de júbilo pessoal.Assim como o pai ou mãe de santo que ao ver que sua gira tem resultados positivos tem que entender que é por mérito do conjunto e não apenas do esforço individual. 
Fico feliz quando ouço histórias de pessoas que através da fé na Umbanda, junto sempre com tratamentos médicos profissionais, curaram-se de doenças terríveis. Assim como me deixa feliz saber que os que passam necessidades materiais encontraram a dignidade  em novos empregos e até aqueles que encontram consolo e aprendizado em minha fé. Porém nada disto faz com que eu sinta orgulho, porque sei que logo em seguida virá alguém com algum outro problema a ser resolvido e o tempo que se gasta alisando velhas medalhas de honra é o mesmo que se pode usar fazendo caridade.
Umbandista de fé e coração não precisa agradar ninguém, precisa é aprender para curar. E quanto mais andamos por estas estradas de Ogum e vemos pessoas buscando ajuda, mais precisamos ficar conscientes para não cair nas armadilhas de nossos próprios egos, em cada vitória ou derrota. Creio que o entendimento deva ser a palavra mais importante que um umbandista deva carregar em sua mente do que a palavra merecimento. Porque não somos aptos a enxergar o merecimento, mas temos sim o dever de ter um bom entendimento- que levará a uma ação mais eficaz. Saravá! 

O link citado acima: 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ogan Toca pra Yansã

Fui pendurar minhas roupas no varal. Não, não sou e nem quero o título de rainha do lar. Ninguém que não goste disto merece. Enfim, estava lá eu quando ouvi um piado "nervoso" e insistente. Era um pica-pau reclamando e isto não é normal, acreditem. De repente aparecem umas cinco aratacas gritando e brigando entre si. Duas entraram em "vias de fato" e caíram no chão, logo alçando vôo novamente. De fato nunca se sabe se as aratacas e as crianças estão brigando ou brincando, são muito parecidas. Assim que foram embora o pica-pau parou de reclamar e voltou à sua função. Então o que se presume desta história? Que não nasci para trabalho doméstico, porque tudo na natureza é passível de reflexão. Adoro observar a natureza, inclusive das pessoas.
Não há como escrever de Umbanda, ou qualquer outra coisa que toque a alma das coisas e das pessoas sem observação. Um belo dia, minha amiga a Rosany Azevedo Costa , começa a me chamar de Griot. Qualquer pessoa com mais de 40 anos já foi chamada de muitas coisas, e fui lá eu buscar informação sobre o assunto. Vi e achei: era muito pra mim. Mas o vento tanto leva as coisas para longe como traz de volta. Depois de passar uma parte da tarde sentindo uma vibração maravilhosa de Yansã no Terreiro, vem uma pessoa e me coloca nas mãos o livro: Mãe África: História da África Subsaariana- Dora Martins Dias e Silva.
E estava lá um capítulo inteiro dedicado aos Griots - Os Contadores de História. Na África é através destes artistas que se mantém a história e ela é divulgada de geração a geração. E foi por conta disto que se manteve geração após geração a história dos negros na Africa Ocidental. É muito comum no candomblé que se entenda como funcionam as energias através das lendas por exemplo, porque uma história é sempre mais fácil de guardar. Então fiquei pensando, talvez isto seja eu, talvez esta seja também minha função só que na Umbanda.
Os Griots também recebem o nome de Djélis , nome que provém da palavra sangue, pois é uma função passada de pai para filho, e as mulheres também fazem parte disto. Geralmente os Griots casam-se com outros Griots, embora possam se casar com não-contadores de história - mas estes nunca podem assumir a função.Um griot é formado por seu pai , que lhe conta várias histórias desde criança, e assim é formado. Ao crescer aprende a acrescentar novas informações observando o mundo de uma forma geral. Meu avô foi um grande contador de histórias, meu pai ainda é. E eu ouvindo tudo isto me acostumei, não vejo a vida de outra forma.Falo tantos "eus" que me sinto constrangida até, mas é para que você saiba que quando o ogan toca para Yansã, os ventos trazem o que você é de fato. Pode acontecer hoje, pode ser amanhã, mas um dia acontece. Até lá a paciência e a alegria, com uma pitada de esforço talvez sejam necessárias.Não desanime.
A diferença que tenho com os Griots é que você não gostaria de me ouvir cantando meus textos, ou transformando-os em trovas. Acho perigoso esta coisa de rimar. Gostaria mesmo de falar pessoalmente, de um por um o que acho da vida e da Umbanda. Os Griots acham que é na respiração de quem carrega a história que está a magia. A minha respiração está aqui e sei que muitos a sentem, pelos comentários que recebo, embora às vezes "trave a quentura da voz humana" a internet é um bom meio de publicar histórias.
Os Griots não enterravam seus mortos, eles os depositavam no interior dos Baobás. Como uma Griot moderna, sou doadora de todos os meus orgãos ,então de certa forma serei depositada no interior de um ser que andará por aí, espero que mais feliz.
Hoje agradeço a Rosany mais uma vez, que como diria uma cigana, lá da região Andaluza, veio e me deu uma buena dicha. Então distribua você também que me lê, uma boa palavra. Saravá!



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Entre Tutu Marambá e o Axé

Foto de uma ama negra em Salvador-1870 autor desconhecido
Tutu Marambá não venhas mais cá, Que o pai do menino te manda matar ... Existem muitas variações nesta cantiga de ninar bem antiga, mas o Tutu Marambá ou Marambaia é o mesmo. Pra quem nunca ouviu falar, esta cantilena foi criada pelas amas negras , no tempo da escravidão, para fazer com que os meninos e meninas brancos que cuidavam dormissem logo e pudessem descansar. Tutu é um termo da nação africana, provavelmente de Angola que representa sempre o monstro - o bicho-papão. Maramba ou Marambaia é um termo indígena associado.  Estas lindas amas negras, inegavelmente compositoras espertas, associaram ainda às cantilenas infantis elementos de sua religião, disfarçados nos santos católicos. Uma musiquinha que cantava sem parar na minha infância era: "São João Da Ra Rão,Tem uma gaita-ra-rai-ta,Que quando toca-ra-roca,Bate nela..." era cantada pelas negras para crianças mas também era uma espécie de oração para Xangô, assim também como esta outra música: "Capelinha de Melão é de São João,É de Cravo é de Rosa é de Manjericão..."
Havia cantos infantis para tudo, um meio de invocar as energias da natureza. Um específico para cura, na linha de Oxóssi: "Pelas vossas chagas,Pela vossa cruz,Livrai-nos da peste,Senhor Bom Jesus.Glorioso Mártir
São Sebastião,Livrai-nos da peste,São Sebastião." Cuidando dos filhos dos patrões, não havia como não se afeiçoar a eles. E quem vê a Umbanda de fora pode até achar estranho em uma gira ver espíritos de pretos e de algumas crianças brancas trabalhando, mas no fundo tem uma lógica. Estas crianças viram suas amas benzendo, costurando e curando com seus Orixás. E como o poder de armazenamento mental dos pequenos é grande, aprendiam tudo muito rápido. É lógico que uma criança na Umbanda vem com uma energia muito maior porque é um espirito que tem na verdade centenas de nossos anos neste plano.
Estou chegando num ponto de visão da Umbanda que me emociono com muitas coisas. Estes dias vendo nosso membro de corrente , o querido João de apenas sete anos tocando atabaque com alegria indisfarçável, me comoveu. O acantonamento da Mocidade da Umbanda no Terreiro do Pai Maneco me encheu de felicidade, só de pensar na alegria deles juntos dormindo em frente ao congá, nossa fonte de energia e alegria continuamente acessa em nossos corações. A formação destes jovens, sem medo de repreensões como havia no passado,com base na fé, no amor e na caridade sem dúvida transformará esta nossa religião de combate muito mais alicerçada e enraizada no bem maior.
Ainda temos muito chão pela frente na Umbanda e ele tem que ser caminhado com os pés descalços, para que sintamos cada pequena pedra, que deverá ser retirada da estrada para o caminhar dos mais novos. Sou fã do Alexandre Cumino, grande incentivador e propagador de nossa religião. Tudo que ele posta eu replico para minha página do facebook. Porém, a fonte onde bebo brota na Umbanda Pés no Chão do Pai Fernando e gostaria de fazer uma colocação baseada na minha interpretação pessoal, e espero que ao ler isto Cumino entenda que não é só para você, mas para todos refletirem.
Ontem vi uma frase sua, que muitos postaram depois de um curso seu: "A Umbanda é predadora natural da magia negra." É uma frase avulsa, fora de um contexto ,mas em minha opinião é contrária à Umbanda. Somos uma Umbanda de diversos rituais diferentes, idéias diferentes de como funciona o mundo espiritual, mas nossa proposição é a mesma: atingir com fé o propósito da caridade pelo amor ao próximo. Temos muitas batalhas sim, somos lutadores em potencial, mas não predadores de magia negra, porque não nos alimentamos dela. Os predadores na natureza vão atrás do que os alimenta. Nós nos alimentamos da Luz Divina e é com ela que alimentamos quem precisa de consolo, de um pouco mais de fé, de força.
Meu propósito hoje é de dizer a todos que trabalham com os jovens e crianças, que tudo o que fizerem a eles vai ser replicado no futuro,com uma potencialidade muito maior, mais aprimorada. Vou ser sincera: eu tinha medo do Tutu Marambá. Hoje meus filhos para terem medo do Tutu  tenho que dizer que ele é ladrão de playstation. As coisas mudam. Umbanda é pra umbandista, pra quem gosta de axé.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Entre a Física e o Bodoque

Toda nossa tecnologia atual advém da Teoria Quântica. Foi o que falaram em um destes maravilhosos documentários do Canal Futura. É bem possível que daqui há alguns anos tenhamos um elevador que nos leve ao espaço e a NASA está oferecendo meio milhão de dólares a quem fizer um protótipo, baseado em cabos com nanotecnologia já existentes. Mas o que mais me impressionou nisto tudo foi uma afirmação: tudo o que conhecemos de física neste plano que estamos não se aplica a nenhum outro plano. Exemplificando: um átomo pode estar num lugar, desaparecer, e aparecer em outro sem aviso prévio.Ou estar em vários lugares ao mesmo tempo. Imediatamente me veio a idéia de que o plano espiritual segue as regras físicas do Universo, as quais não estamos inclusos.O deslocamento das entidades e o fato de incorporarem em mais de um médium ao mesmo tempo fica muito fácil de explicar por esta teoria. Mas isto é para quem entende realmente do assunto.Quando me pego nestes devaneios, parece que a voz do Pai Fernando Guimarães salta à minha mente falando: no que isto ajudaria num processo de cura?
Os cientistas querem criar organismos vivos com a nanotecnologia, ou seja, organismos do tamanho de átomos sem possuir nenhum elemento já existente em nosso planeta. Apesar de toda a aparência maravilhosa, estes micro-organismos criados pelo homem podem servir além da cura de várias doenças, para a guerra entre nações inteiras. Dizem que saberão tudo sobre o universo inteiro observando algo que é totalmente imprevisível como o átomo.
A ciência é algo muito admirável, principalmente para nós que não a conhecemos com profundidade, mas podemos usar um pouco de seus parâmetros para divagar sobre nosso caminhar. Por exemplo, todos nós que moramos do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul estamos inseridos no grande bioma da Mata Atlântica. Bioma é um conjunto de diferentes ecossistemas, que possuem certo nível de homogeneidade. São as comunidades biológicas, ou seja, as populações de organismos da fauna e da flora interagindo entre si e interagindo também com o ambiente físico. Como diz a música de Rui Maurity feita em 1976, "Eu vi chover, eu vi relampear, Mas mesmo assim o céu estava azul,Samborê, Pemba, Folha de Jurema, que Oxóssi reina de norte a sul"
Vivemos no meio das terras de Oxóssi. Por mais que se levantem prédios e indústrias neste espaço, a pouca vida que ainda sobrou deve ser preservada. Tem gente que pensa que os índios foram os primeiros ecologistas, mas eles nunca o foram: eram a própria mata . Porque um bioma é muito mais que uma árvore ou um animal, é tudo o que a floresta contém.Oxóssi é o índio, é a flor e é o pássaro. É da energia de Oxóssi que vem a cura, pois esta energia  se movimenta através de diferentes organismos vivos. Mesmo que, nesta região que atua o bioma da Mata Atlântica, você esteja num ponto de ônibus, esperando a condução para seu trabalho, ao ver um sabiá buscando comida à sua frente, ali estará a energia Oxóssi se manifestando.
Os grandes cientistas estão tentando criar formas diferentes de vida, pode ser válido, mas o nosso trabalho como umbandistas conscientes é bem maior.  Sabedores de que estamos em terras de Oxóssi, devemos respeito e este respeito só é notado quando somos disseminadores da idéia de preservação e não-poluição. Ninguém é obrigado a concordar com nossa religião e nosso jeito de pensar, mas pode ser sim conduzido a nos apoiar pela preservação de nossa própria espécie através de nossos atos. Há tantos projetos de preservação ambiental possíveis de nos engajar em nossas práticas diárias, inclusive nos terreiros.
O que não podemos é esperar que realmente surja este elevador que nos leve ao espaço para ver a grandiosidade do mundo que habitamos e o quanto somos responsáveis por ele. Encerro com um poema do Pai de Santo Leonardo Guimarães:
"Oxossi é como a cobra jibóia, igual onça pintada, tal e qual o gavião e o macaco sagui. Oxosse é a samabaia, o bambu e o jacarandá. É Oxosse qualquer rastro de relva verde. Ele próprio é a seiva vegetal que perfuma a floresta. Oxosse é o calor do sol e também a sombra da folha, do galho do tronco da árvore. Ele é a fruta suculenta que alimenta a vida, a alegria e a liberdade. Oxossi está na mata, na cidade, na terra inteira, onde seus filhos nascem vivem e morrem, guiados sempre por sua FLECHA CERTEIRA."
(Leo Guimarães, 2009)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Médiuns de Umbanda

Dona Andréa a senhora já reparou como a gente gosta da gente mesmo? As pessoas me chocam às vezes com seus pensamentos.Esta flecha certeira veio pelo arco dos pensamentos de seo Dirceu, um taxista aqui da cidade. De fala mansa , me contou que havia levado uma senhora na casa de uma amiga. No meio do caminho , a mulher se confundiu com as ruas e falou: seo Dirceu "tamo" perdido! E ria sem parar. Conhecedor do jeito da freguesa e taxista há muito tempo por aqui, perguntou sobre algumas características desta amiga dela, que por sinal era muito parecida com a passageira,  pessoa de bom humor e de bem com a vida. E pronto: seo Dirceu sabia de quem se tratava e onde morava. Porisso este taxista com um GPS filosófico afirma que nos aproximamos de quem tem características iguais as nossas simplesmente porque gostamos muito de nós mesmos, e passeou pelas memórias  explicando sobre pessoas de temperamentos idênticos que conhecia.
Hoje, pelas contas da ONU, chegamos à conta de 7 bilhões de habitantes.Então , nesse momento há essa enormidade de gente pensando em como pode ser mais feliz. A menina que nasceu hoje sabe , instintivamente, que a felicidade dela está na mãe. Quem está doente , projeta  sua esperança de cura nos remédios, nos médicos e no Divino. Quem está sozinho, molda um par perfeito para caminharem de mãos dadas. E cada um destes sete bilhões de seres na busca de algo que os complete.
Nós médiuns de Umbanda temos a grata satisfação de interagirmos com inteligências diversas das nossas. As entidades que recebemos, logicamente, tem a ver com nosso nível vibracional, mas não as escolhemos. A natureza é tão perfeita que agrega energias para trabalhar com mais eficácia. Esta junção de inteligências escolhidas pela natureza do que realmente somos é uma manifestação Divina que nos leva a um ponto muito importante, se nos ativermos à entrega em prol da fé, do amor e da caridade.
A Umbanda não funcionaria como uma religião de consolo e cura se usássemos somente nossos dons individuais. Há um escritor chamado Clive Staples Lewis , conhecido pela maioria pelo livro Crônicas de Nárnia, que diz o seguinte: " Deus só pode mostrar-se como realmente é a homens reais. E isto significa não apenas a homens que sejam individualmente bons, mas a homens reunidos num só corpo, que se amem uns aos outros, que se ajudem uns aos outros e mostrem Deus uns aos outros." Portanto é na entrega à incorporação, no exercício da tentativa de sermos a cada gira um pouco mais humildes, que interagiremos com mais clareza com as entidades que atuam em nossa religião e permitiremos, tanto a nós, como a todas as energias que nos circundam e aos que buscam ajuda uma visão mais clara do Divino.
Quando alguém vem buscar ajuda e se senta em frente à qualquer entidade ali se misturam muitas energias. Sentimos o que a entidade sente, as nossas próprias idéias sobre o problema e as do consulente, além da energia do cambone. Naquele momento somos um elo de uma corrente maior que é a própria gira. Se fosse possível fotografar somente a energia, com certeza teríamos a reprodução quase que exata, no meu entender, de fotos como esta que postei de uma galáxia. 
Estar na Umbanda é exercer o amor. Porque atendemos pessoas desconhecidas e abraçamos a dor de estranhos ao nosso dia-a-dia. Talvez nosso maior passo em direção à verdadeira caridade é entender uma outra frase deste mesmo autor que citei acima: "Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo."  Por vezes somos impulsionados por nossos egos que se inflam nos sucessos e esvaziam nossa felicidade nos fracassos. Quando se trata de energia e de todo um movimento da natureza, não há como qualificar sucessos e fracassos, simplesmente porque não temos uma visão completa. Independente do que possamos supor sobre os reais resultados, o importante é estarmos sempre dispostos à entrega e à felicidade de fazermos parte de uma energia maior.