Tem certeza que não tem cães aí? Tenho, pode vir buscar suas fotos. Minha mãe desliga o telefone e depois de uma meia hora a porta da sala é quase que derrubada com socos violentos: A senhora falou que não tinha cães, mas por favor podia avisar que tinha um jacaré?
O primeiro texto que escrevi foi sobre este homem que havia ido buscar uma encomenda de fotos lá em casa. Eu tinha 7 anos. O dito jacaré já tinha feito estragos assustando as galinhas. Enfim, era empalhado.De noite todos os jacarés empalhados parecem vivos mesmo. O coitado do homem tremia tanto que pensei que ia morrer ali mesmo. Encontrei esta lembrança vasculhando as gavetas da minha memória.
Quando minha avó morreu, eu encontrei sobre esta história do jacaré escrito num pedaço de papelão, que era usado na época nas embalagens de camisas. Escrever me liberta desde pequena. Neste blog acho que consigo ser meio abolicionista às vezes, penso comigo.Porque às vezes livro outros junto comigo. Então ,por este motivo plantei uma foto de camélia na postagem de hoje. Talvez me liberte um pouco das saudades que tenho.
Pois vou falar dos meus sonhos. Queria ,numa noite destas, que desse um pé de vento e me levasse até a casa do Pai Maneco, entidade dona do Terreiro que freqüento. Não sei a história dele, mas gostaria de passar em sua casa em Aruanda e primeiro ver se tem pés de camélia em seu jardim. Creio que os tenha. Para quem não sabe, todo abolicionista brasileiro tinha plantado em sua casa um pé desta flor exótica em sua casa. A Princesa Isabel vivia recebendo ramalhetes desta flor subversiva. No livro de Eduardo Silva , que abaixo deixo um link para lerem na íntegra um dos textos, diz o seguinte "Na verdade, a hoje aparentemente insuspeita camélia, fosse natural ou artificial, era um dos símbolos mais poderosos do movimento abolicionista. A flor servia, inclusive, como uma espécie de código através do qual os abolicionistas podiam ser identificados, principalmente quando empenhados em ações mais perigosas, ou ilegais, como o apoiamento de fugas e a obtenção de esconderijo para os fugitivos. Um escravo de São Paulo, por exemplo, que desse às de vila-diogo e viesse parar no Rio de Janeiro, podia identificar imediatamente os seus possíveis aliados, já na plataforma de desembarque da Estação D. Pedro II, simplesmente pelo uso de uma dessas flores ao peito, do lado do coração. "
Creio no Pai Maneco como abolicionista antes de escravo. Quando um ser se preocupa em livrar a tristeza dos outros, os grilhões que a falta de fé e de coragem para enfrentar este mundo que prendem o desenvolvimento das pessoas, este ser só pode ser um abolicionista. Em meu sonho iria tomar um café com ele demoradamente. Imagino ele sorrindo e respondendo a todas as minhas perguntas sobre as dores do mundo com um:"acontece Andréa porque as pessoas têm livre arbítrio". É tanto sofrimento neste mundo e tantas pessoas precisando de ajuda que é bem fácil a gente se perder no meio de tanto serviço. Na verdade iria até a casa do Pai Maneco só pra retomar o fôlego e colher umas camélias. Todo médium umbandista têm que ter em mente que é um abolicionista, porque sua principal função é passar a mensagem de que somos livres, inclusive para escolher uma nova ressurreição nesta vida mesmo. Gostaria que todo terreiro tivesse pés de camélia.
Já estava com estas idéias na cabeça, quando assisti uma entrevista com o escritor uruguaio Eduardo Galeano na Tv Cultura. Dizia ele que ouviu a melhor definição de utopia e com ela encerro meu texto de hoje:
"A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
AS CAMÉLIAS DO LEBLON E A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA






