domingo, 4 de setembro de 2011

Umbanda on Line

Tirei a semana para observar as pessoas, como são e para onde se movem seus pensamentos. Não com o intuito de julgar,mas apenas observar uma paisagem. Alguns estacionam seus pensamentos em propósitos nobres, outros se contentam com os pequenos poderes, das pequenas elites. O mais engraçado é que os que depositam seus pensamentos em nobres atitudes, não estão nem aí para , como se dizia antigamente, "a hora do Brasil". São os revolucionários e vou dizer que gosto muito deles.
Hierarquias e elites sempre dominaram o mundo. Vez por outra, surgem os insurrectos, as pessoas que não aceitam a submissão a valores pré-estabelecidos. Na década de 20 aconteceu uma onda de mudanças mundiais neste sentido. Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado, que criaram, principalmente nos Estados Unidos, um clima de prosperidade sem precedentes , constituindo um dos pilares do chamado "american way of life" (o estilo de vida americano).
Algumas décadas depois, vem os hippies. Talvez eu tivesse me tornado uma ,quem sabe, só que creio que não seria o suficiente. Paz e amor são bons objetivos, mas tem que ser um pouco mais práticos no meu entendimento. Pensando em todas estas coisas, vi ,quase sem querer, um documentário sobre a internet. Qualificam-a como um prosseguimento deste movimento hippie dos anos sessenta. 
Nivelamento da população, sem hierarquias e sem elites, um lar para a mente, um espaço só dela. Na internet você não precisa ser ninguém ,para ser alguém. Milhares podem te seguir pelo que você pensa, mesmo que o que você pense seja fútil ou extremamente inovador. Você não precisa de diplomas nem de uma carinha bonita. Pode ser que daqui há algum tempo haja algum tipo de hierarquia, mas por enquanto o que voga é este nivelamento. Eu pessoalmente, consigo ver uma aspecto diferente. São grupos afins que navegam pelo ciber espaço , assim como os grupos espirituais se movem em outros planos: por afinidades.
Por princípio a Umbanda no meu ver tem muito mais de processo revolucionário do que uma religião. Surgiu em 1908, quando o médium Zélio de Morais incorporado com o caboclo das Sete Encruzilhadas, falou a todos numa sessão espírita, depois de terem recusado a presença de alguns espíritos de pretos-velhos e índios: " Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não haverá caminhos fechados. O vidente retrucou: "Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto" ? perguntou com ironia. E o espírito já identificado disse: "cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei".
E assim, no passar destes anos todos de Umbanda seus adeptos têm vivenciado uma luta constante das entidades que passam mensagens de igualdade, amor e fraternidade, independente da linha em que trabalhem e da roupagem com que se mostrem nos mais diversos terreiros. Todos os grupos espirituais têm lideranças para conduzir e auxiliar, assim como deveria ser neste nosso plano material. Contudo ,aqui estamos bem acostumados com hierarquias enérgicas e com gosto pelo poder e pelas elites. Bobagens que com o tempo, dentro da Umbanda se dispersam, pela própria vontade das entidades e de seus ensinamentos.
Quando no início da minha caminhada, vieram perguntar para o caboclo que eu recebia qual era seu nome ele disse: sou UM caboclo de Ogum Beira Mar. Achei estranho ,mas depois aprendi que eles são muitos e que seus nomes não são o elemento primordial desta religião libertária: o foco principal é a liberdade. Liberdade de amar, de entender, de vivenciar. Nomes nos prendem a valores terrenos e é nesta terra que devem ser valorizados.
Dentre as muitas coisas que já vivenciei na Umbanda, uma em especial vou citar para o resto da vida como sendo motivo principal para continuar nesta religião de inssurrectos. E nem estava dentro de uma gira. Conversava eu com um querido amigo lá no terreiro, quando chega o Pai Fernando. Depois de explicar detalhadamente um sonho com um caboclo ao pai de santo e esperando um veredito justo, Pai Fernando do alto dos seus cinquenta anos na espiritualidade pergunta: me diga , sabendo de tudo isto, o que vai te ajudar na hora que chegar uma pessoa para você e perguntar: estou com câncer , o que é que eu faço? 
Pés no chão significa muito mais do que todo conhecimento esotérico que se possa ter. Porque com os pés descalços no chão você trilha um caminho muito maior, do que o trilhado pela mente em devaneios. Não que o sonho deste meu amigo não seja importante, pois ele é, mas só para o conhecimento pessoal dele. Umbanda é partilha, então o conhecimento que adquirirmos deve ser algo que possamos usar em benefício do próximo também ,não só do nosso. As lideranças da Umbanda têm que entender que é partilhando que se cresce, sendo objetivo, simples e diretos que não perdemos o caminho traçado pelo Ogum ,lá em nosso início.
Exemplificando um pouco de tudo que falei hoje, vou citar uma notícia que saiu no blog da minha querida Telma Monteiro. A foto acima é de Marimop Surui Paiter. Você pode não conhecer ,mas ele foi muito importante em sua tribo: "A Nação Surui Paiter fica órfã de um grande homem, uma pessoa que carregava consigo um balaio de conhecimento sobre suas tradições, respeito à natureza e adaptação às bruscas mudanças em sua cultura impostas pelo contato compulsório com o mundo ocidental eurocêntrico.Marimop Surui Paiter viveu no planeta Terra por mais de oitenta anos, não se sabe ao certo em que ano nasceu, isto não parecia importante para ele. Tempo suficiente para apreender as formas, ritos e sons de uma sociedade onde o bem estar coletivo era prioridade."
Através da internet temos acesso ao mundo desconhecido, como o do Marimop , um guerreiro importante no seu local de nascimento. As idéias de Marimop sobre o bem estar coletivo se assemelham as idéias que devemos ter enquanto libertários: devemos viver numa sociedade onde o bem estar coletivo seja prioridade. No caso da Umbanda Pés no Chão sempre haverá lugar e voz para quem compactuar com os ideais das entidades desde sua fundação:  
falar aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.

Para ler mais no blog da Telma Monteiro: 

11 comentários:

  1. Muito pertinente seus pensamentos, precisa divulgar em jornais de grande circulação! Afinal, não é todo dia que alguém com tamanha inteligência, nos presenteia com um texto dessa magnitude. Fantástico!! Parabéns!

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  2. Cristiano José! Is on twitter: @cristianojose_

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  3. Andreia,

    sintonia e singularidades, sei lá como chamar isso mas a verdade é que os valores que nos mantém "fincados" no chão nos unem e a energia que passa através de tudo nos sustenta juntos enquanto é necessário.Acredito em atração e que nada tem um tempo definido.Somos seres mutáveis e em constante movimento.Nestas idas e vindas coisas lindas acontecem e pessoas aparecem como em passe de mágica pra fazer parte do nosso mundinho.Ainda bem!Nada que é estagnado e estático me faz bem.Tomara que eu consiga enxergar sempre além das aparências e que a humildade seja sempre ponto de união.Beijos

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  4. Amiga Andréa,

    Esse final de semana, deparei-me com um assunto muito instigante: A ida do homem à Lua.E isso me fez querer pesquisar mais e mais sobre a Nasa. Quando vi, já era quase 3 da manhã de hoje e eu lá, não me cansando de ver o que o homem já fez no passado, para dar sequência no "hoje". Gosto quando diz que o passado serviu como fase de revoluções (citando 1920).O insight que nos deixa é que o conhecimento de hoje, depende do esforço de ontem. Adoro essa ideia.

    Parabéns, mais uma vez!

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  5. Parabéns! Texto perfeito. Beijos

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  6. Texto encantador! Não preciso dizer que concordo completamente com tudo que você escreveu, né?

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  7. Dear Andrea,

    Com seu magnífico texto, você nos mostrou
    um verdaeiro percurso da evolução da humanidade
    como também a bela filosofia da ESPIRITUALIDADE, nos meandros da UMBANDA, em tempos atuais.
    Parabéns! Valeuuuuuuu...
    Beijos de LUZ: Liduina.

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  8. Ainda bem que estamos evoluindo...partilhar ainda é uma questão que nós umbandistas precisamos aprender...e que bom que posso dizer "o primeiro passo já foi dado"!!!

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  9. Você sempre nos brindando com texto sem comparação!
    A internet nos abre um imenso leque de informações em todos os temas, mas é importante que saibamos separar o joio do trigo. Ensinar, transmitir conhecimento é algo de suma importância e grande responsabilidade. E no caso da Umbanda, não devem ser propagadas por mentes fantasiosas.
    Concordo com você “Umbanda é partilha, então o conhecimento que adquirirmos deve ser algo que possamos usar em benefício do próximo também, não só do nosso.”
    O conhecimento deve ser transmitido e não detido em nós. Alguns Umbandistas para tornarem-se semi-deuses, escondem de seus irmãos aprendizes os ensinamentos, retendo para si o que deveria ser partilhado.
    A Umbanda não prega o egoísmo e sim o bem estar coletivo. Suas Entidades são símbolo de amor, caridade e humildade. Seguir os mandamentos de abraçar e aceitar com igualdade nossos irmãos vai continuar sendo, por um bom tempo, “uma luta constante das entidades que passam mensagens de igualdade, amor e fraternidade, independente da linha em que trabalhem e da roupagem com que se mostrem nos mais diversos terreiros” aos filhos de Umbanda.
    Parabéns Andréa por nos transmitir textos como estes, capazes de abrir nossas mentes para o entendimento da luz e da verdade.
    Que Xangô e Iansã zelem por ti, diante de Oxalá!

    Raquel

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