sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Seguindo o Sol

Mamãe pode me falar o por quê das pessoas chorarem em casamento? Ora, o porquê é um só: emoção! Mas não faz sentido, ficar feliz faz sentido,mas chorar não! E, me dando as costas, lá se vai o Syrus com seus 11 anos de perplexidade sobre a existência humana.
Não tem sentido chorar em casamentos, tem? Nunca havia pensado nisto ,mas é um condicionamento. Uma cena que nos remete a um arquétipo de felicidade, que entra em choque com tudo que conhecemos de vida real. Conheço uma pessoa, que além de mim, também chora até em comercial de supermercado. Basta ter uma ligeira sugestão de felicidade eterna, que lá está ela chorando - como eu. Daria um maravilhoso estudo psicológico. Como não é minha área, vou me ater no que conheço.

Todo bom médium é hiper sensível. Não tem como ser diferente.É esta sensibilidade exacerbada que o torna apto a ficar em estado de vigília para exercer sua função mediúnica, e é o que proporciona também noites de sono mal dormidas.O processo de desenvolvimento é mais para te relembrar como se reconhece uma energia, porque somos todos espíritos que já tem experiências neste "reconhecimento".

Na grande maioria das vezes somos condicionados culturalmente a aceitar as coisas como são, mas quem trabalha com energias sutis tem que, necessariamente, estar alerta aos sinais que nossos protetores nos mostram. 
Estes dias uma amiga foi ver o nascer do Sol na Praia do Rosa e se emocionou muito. Dava para sentir de longe a energia boa que ela emanava. Ali ela encontrou o Divino e o Divino fez morada nela. Assim, além de se abastecer partilhou a energia com os que estavam perto. Ela então foi a prova viva da influência energética.
Por outro lado, fica, também, evidente a energia ruim nas pessoas e depende sim do que você alimenta sua alma. Com mediunidade ou você é quente ou você é frio, não existe meio termo. Algumas vezes já ouvi a seguinte frase: "Olha eu frequento tal lugar, eles fazem coisas erradas, mas eu faço a minha parte para o bem e tá tudo bem." Gente, isto "non ecxiste"! Fazendo parte de uma egrégora, de uma corrente eu sou você e você sou eu, não há distinção. Até porque , para surtir efeito, na hora da gira há meio que um nivelamento de energia para um determinado fim. Embora sejam instrumentos diferentes, todos tem que tocar a mesma música, senão não há concerto, no caso, a gira não "gira".

Da mesma forma, em outras religiões é bem comum encontrar dissonância entre o que se vê e o que cada praticante acha que está fazendo. Como a sua energia é algo totalmente "lida" pelas pessoas com as quais você interage, há que se cuidar sim com a egrégora a que queira pertencer. Quando você vai procurar emprego, fechar algum negócio ou mesmo fazer uma nova amizade a outra pessoa lê intuitivamente a energia que você passa. Não conseguimos o transbordar de energia boa o tempo inteiro, todos temos problemas ,mas temos que buscar sempre o equilíbrio , procurar alinhar nossos pensamentos com nossos sentimentos.  

Alguns umbandistas não gostam muito das lendas dos Orixás, mas elas são instrumentos para entendermos como é possível a transmutação de energias para exercermos plenamente nossos dons e quanto estamos ligados uns aos outros. Quando se trata de energia quanto mais observamos,mais aprendemos a ler e a perceber o mundo que nos envolve. Se nos entregamos a convenções culturais e sociais, passaremos a vida nos emocionando em casamentos, em instituições humanas, mas, se nos entregamos a luz de um novo dia nascendo, a presença do Criador fora e dentro de nós cada vez vai ser mais evidente. Não é fácil,mas é possível. Saravá!

As fotos usadas aqui estão disponíveis na página:  https://www.facebook.com/Pictures.1.Ooo.ooO 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Havia uma Perda no meio do Caminho

Todo e qualquer religioso dá atenção a seus sonhos. Eu não sou diferente. A vida não é fácil então ficamos rastreando o Divino para ver se ,pelo menos em sonhos, ele nos dá um sinal que as coisas vão melhorar para o nosso lado ou pelo menos que elas têm solução. Esta noite tive um sonho que me levou a uma série de questionamentos e isso, antes do café da manhã. Vou ser sucinta para não incomodar ninguém e também para que partilhem comigo e acrescentem com suas idéias. 
Sonhei que estava tirando uma série de espíritos ruins de uma mulher e eles me enchiam muito a paciência com efeitos especiais que -como sempre falo- são só legais no cinema. Briguei e esbravejei muito com eles e pensei: é um porre ter que fazer tudo sozinha! Então, no sonho, mesmo cansada pensei: a Umbanda na verdade só pode ser isto: um conjunto,eu sozinha não sou Umbanda. Simples né? Mas acredite que muita gente ainda não descobriu isto. Não só a Umbanda ,mas toda e qualquer religião se não formar um grupo em prol de um bem maior, não é religião, mas apenas a tratativa do ego da própria pessoa.
Ego, aliás, não tem a ver com nenhuma religião enquanto "link" para acessar Deus. Religião não é para dar poderes ilimitados, é para partilhar a energia que você possui e formar uma força maior. E esta força maior dissipa-se quando de dedo em riste apontamos para a religião do outro. Tem muito umbandista preconceituoso por aí que fala dos evangélicos, católicos e espíritas e dos próprios irmãos de religião. Isto dissipa a força maior que poderiam ter.
Todos nós umbandistas somos guerreiros em potencial. Primeiro temos que guerrear para manter o próprio equilíbrio, depois combater o ego das conquistas e a frustração das perdas. Acredito porém que nossa maior batalha é parar de acreditar que tudo é demanda. Quem somos nós para sermos alvos do mal? Só se acreditarmos que temos uma força benigna tão grande que temos que ser eliminados. É, de fato, um contrassenso: a religião dos humildes ter tanta gente com o ego inflado.
Tocar a Umbanda sozinho é impossível. Neste caso você não é um umbandista e sim um manipulador de energias solitário.Não que não tenha valor, temos todos os benzedores aí para provar isto. O que quero dizer é que Umbanda é a unidade das diversidades em prol de uma finalidade só: o equilíbrio energético de quem a procura afinizando com a Lei Maior.
 Se você for analisar as próprias entidades em algum momento entenderam que em conjunto têm muito mais força. Nenhuma delas tem nome próprio, antes se identificam ao grupo a que pertencem. Sabemos muito pouco sobre o que são na realidade e quais caminhos usam para o bem comum. Muitos umbandistas ainda as vêm como guarda-costas pessoais ou pior, como oráculos dispostos a nos fazer previsões sem um sentido prático. Na verdade não sabemos escutá-las.
Invariavelmente queremos saber das coisas que nos darão prazeres imediatos: se ficaremos com aquele amor, se conseguiremos isto ou aquilo, mas me parece que eles falam uma língua e nós outra. Eles nos falam de coisas que podem mudar o rumo de nossos pensamentos e principalmente nosso nível vibracional. Eles nos falam de nossa evolução enquanto queremos só saber do próximo capítulo de nossa Avenida Brasil pessoal. Temos que prestar atenção ao que nos falam e refletir sobre isto, afinal nosso hino não é " Refletiu a  Luz Divina....."?
Eu estou num processo de reflexão. Os poucos contatos que tenho tido com entidades incorporadas tem sido extremamente significativos, porque tenho que absorvê-los com calma. Vou partilhar com vocês três coisas que ouvi, vi e vivenciei e que me foram trazidas por Mestre Cipriano - incorporado em um médium completamente entregue à Umbanda , o qual não citarei o nome por razões óbvias.
Primeiro ele me falou de uma grande surpresa em meu retorno à minha casa, depois falou-me da ligação espiritual que tenho com uma grande amiga-irmã e por último de como deve agir um médium ao cair em sua caminhada.
A surpresa foi o reencontro do meu companheiro com um filho que buscava a 34 anos - que ocorreu uma semana após a minha volta. A ligação com minha amiga-irmã se deu ainda no plano astral, onde nos ajudamos e nos comprometemos a nos encontrar aqui. E a lição que me deu foi a que todo médium cai frequentemente na sua caminhada, mas que ao cair deve se levantar e erguer a cabeça,não dando muita atenção ao buraco em que caiu. 
A você meu leitor digo que o Divino é um só. Mestre Cipriano foi o incumbido de me trazer uma mensagem, de me fazer ver uma realidade nova, então transformar o que sei e que sinto numa mensagem para você. Experimentamos uma série de perdas durante toda nossa vida nesta terra. Algumas eternas outras transitórias,mas todas sem exceção nos conduzem ao entendimento que a vida espiritual não é algo transitório e de consumo rápido. Tudo o que vivenciamos nos fortalece se temos em mente nosso aperfeiçoamento em prol de uma unidade maior. A unidade maior é o Amor, porque este sim é eterno e unificador.  Onde há muitos unidos pelo verdadeiro amor haverá sempre vida. Saravá!


A foto que postei aqui é do site da fotógrafa http://www.daniellarosario.com.br 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Da Qualidade do Umbandista

Eu não sei você,mas eu tenho uma coisa que acontece  às vezes: fico meio de "mal" comigo mesma. É estranho, mas acontece. Aqueles dias em que você começa a analisar as coisas que faz e que deveriam ser diferentes. É duro conviver consigo mesmo, com os outros então é missão quase impossível.
Na Umbanda a diversidade de rituais é enorme e rica, mas alguns pontos são exatamente iguais, principalmente no que diz respeito a aprendizados pessoais.
A convivência é a grande obrigação a que todos são submetidos e é inevitável no processo de desenvolvimento mediúnico. Se você não é capaz de aceitar seu irmão de gira com todos os defeitos, como -me diga- vai aceitar um estranho que senta na sua frente- mesmo você estando incorporado- contando suas desventuras sem o julgar? Ninguém é melhor ou pior que ninguém,mas antes disto somos todo um universo à parte. A caridade começa conosco e dentro de nós.
Estive na festa de Cosme e Damião do Centro Espírita de Umbanda Ogum Megê e Oxum do Mar no berço da umbanda, em São Gonçalo- Rio de Janeiro e ali vi alguns pontos essenciais da Umbanda que deveriam ser praxe em todos os terreiros independente da linha que sigam. Para uma gira "girar" há que se respeitar a troca que há neste plano entre médiuns antes e depois do ritual. Se você nunca varreu o terreiro que você frequenta não sabe o que está perdendo. a verdadeira casa do umbandista é o terreiro que frequenta, então aquele que não se "mistura" , aquele que não se integra à esta vibração fatalmente não terá seu desenvolvimento pleno.

Como toda família, mesmo com toda a parceria possível e imaginável, haverá sempre momentos de tensão, em que as palavras serão trocadas com mais aspereza e os ânimos estarão exaltados. Não se enganem ,pois o principal lugar em que as entidades testarão sua evolução será sempre em seu coração, pois nossas maiores provas acontecem dentro da gente. As vezes não há até uma má intenção, apenas um excesso de amor que pode ser prejudicial. Para quem não conhece a Umbanda, devo contar que pai e mãe de santo sofrem igualzinho aos nossos pais, porque dentro de uma gira todos os filhos querem atenção e querem mostrar que são melhores nisto ou naquilo,justamento por excesso de amor.Porisso digo: não obsidiem seus pais de santo, antes sejam colaboradores em Oxalá.

O caminho do equilíbrio é sempre o melhor caminho. Pense antes de falar ,de escrever, de expor seus pensamentos porque ali, naquele seu irmão de corrente há sim um pedaço de você, e as vezes pode ser justamente aquele pedaço que você não aprecia. Nos confrontamos todos os dias com nossos defeitos, espelhados nos outros para que consigamos transmutá-los, afinal estamos na religião das transmutações. 
Hoje estou mais completa e queria dividir isto também com vocês. Encontrei no Centro Espírita de Umbanda Ogum Megê e Oxum do Mar em cada um um pouco de mim e confirmei elos espirituais que sei que me acompanharão até o final de meus dias. Fiz questão de gravar cada rosto, cada tom de voz para que em momentos de solidão eu lembre que faço parte também desta família, porque esta é um dos grandes segredos da religião: dentro da nossa individualidade somos um só. Saravá!

domingo, 23 de setembro de 2012

O Poder na Umbanda

Ajeitando-me no assento do ônibus, olhando pela janela, começo a pensar nas pessoas que vou avistando pela rua. Cada uma no meio de sua própria história, desenrolando os fios de seu destino, tentando entender qual é o comprimento exato de sua sina. Então, me veio a necessidade de escrever e como sempre meus textos tem destino certo embora sem nomes, desta vez vou escrever uma carta, e embora ela tenha um destinatário é para cada um que tenha enveredado pelos labirintos da Umbanda e tente resolvê-la mentalmente com o fio de Ariadne-a lógica.
"Querido Rafael:
Agora que ingressaste na religião dos homens e mulheres livres - a Umbanda- permita-me deixar através desta algumas senhas, que destravarão alguns de seus muitos portais e fecharão irremediavelmente outros. Não sei muito, mas o pouco que sei trago a ti - na esperança de que sigas o teu caminho com novos olhos,ou , pelo menos descubra cores que eu mesma não admirei ainda. Querido te digo que a Umbanda é mágica, antes de qualquer outro atributo, porque quando pensas estar vendo algo concreto, a imagem se esvai e te surpreende. Onde tiveres uma certeza absoluta, ali estará, sem dúvida, um grande mistério a resolver. Como médium Rafael, ponte entre este plano e os espíritos, quem será a pessoa que mais necessita  e que você irá ajudar? O homem doente, o desempregado, o drogado, o que sofre por amor? Quanto mais você fizer esta pergunta, mais entranhada em ti estará a resposta: nenhum deles. No meio de tantas batalhas quem se salva? Quem melhor lutou, com melhores armamentos, conhecimentos, atributos e dons ou quem  cruzou os braços e se negou a agir?Nenhum dos dois.

A primeira regra básica e de ouro é a seguinte: nada - absolutamente nada- é o que parece. A Umbanda não foi feita para ter uma lógica, não foi feita para teorizarem de forma restrita- como a mente humana está acostumada. Sempre é bom ter em mente o fato que originou a Umbanda como conhecemos e , deixo aqui transcrito uma parte do ocorrido na noite em que o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou, uma médium pergunta: "Por quê o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramente atrasados ? Por quê fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz ? E qual o seu nome irmão ?
E o espírito desconhecido falou: "Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não haverá caminhos fechados. O vidente retrucou: "Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto" ? perguntou com ironia. E o espírito já identificado disse: "cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei".
Hoje querido Rafael, bem sabes que cada colina e cada vale deste Brasil é possível encontrar um terreiro de portas abertas, muito embora a arrogância da médium que indagou o Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca deixou de existir, mesmo nos umbandistas. Sabe Rafael , eu sinceramente vejo que a grande maioria das pessoas pratica a Umbanda em busca de poder. Posso até te dizer que a cada dia que passa o mundo está mais cheio de gente, e todo mundo busca algo para não ser confundido na multidão, mas se lembra que te falei que tudo que parece na Umbanda não é? Na prática umbandista quanto mais fores parte de uma multidão,mais forte serás. Engana-se aquele que quer se sobressair, pois este não serve nem ao lado de lá, nem ao lado de cá.

Um pai de santo Rafael tem que entender que ele é tanto o médium novo, quanto o mais velho. É tanto o ogã, quanto aquele visitante que pisa pela primeira vez no terreiro. Tanto nas qualidades quanto nos defeitos, pois ele é o equilíbrio. Na Umbanda trabalhamos com cinco elementos básicos: o ar,o fogo, a terra, a água e  a palavra. Você mais cedo ou mais tarde descobre o potencial dos quatro primeiros elementos e seu uso prático. Contudo Rafael, nunca, jamais - em tempo algum- despreze o poder da palavra. Ela pode afogar,enterrar, queimar, asfixiar seriamente os sonhos dos outros. E não pense que é só a palavra que sai da sua boca, sua ou das entidades, mas toda e qualquer palavra que surge em tua mente. Orai e vigiai sempre, para que você não adoeça,nem os que dependem de ti. 
A estrada que você trilhar pela Umbanda pode estar cheia de gente: amigos, parentes, desconhecidos, mas não te enganes porque ela é sim solitária. Terás que combater teus monstros e o dos outros sozinho, porque -não te esqueças- quem está sendo curado é você. Pai ou Mãe de Santo que não entende isto Rafael, vive em conflito consigo mesmo e com os outros, na realidade demanda contra o espelho.
Quando chegares a ti a história de cada médium de sua corrente, cada membro da assistência e tua mente ativar o processo de julgamento: este é uma boa pessoa por isto, aquele é uma pessoa errada por aquilo, mais uma vez te peço: lembre-se que NADA é o que parece. Às vezes, o Divino envia anjos à tua presença Rafael para ver o quanto você está curado e quanto precisa ainda aprender. Quanto mais julgares dentro da Umbanda, mais doente estarás - e esta é mais uma senha importante- porque como disse a Umbanda é uma religião de homens e mulheres livres.
Todo problema que uma pessoa te apresentar dentro de uma gira é real naquele momento para ela, embora possa não ter existido antes e não venha existir no futuro. Leve isto a sério, mas tenha sempre contigo, ali junto com as pembas e as velas uma boa pitada de bom humor e um sorriso para ser usado em emergências. Porque , querido, ter bom humor é elemento fundamental na Umbanda, principalmente com relação a você mesmo.
Por fim Rafael, gostaria de te lembrar que as entidades representam suas falanges e não fazem questão nenhuma de seus nomes próprios, seja de que vida for, porque elas sabem que só podem ter força na unidade - e a unidade só vem com a compreensão que fazemos parte uns dos outros. E todas estas partes- boas ou más- fazem parte de Algo Maior, que entendemos por Divino. Rafael ,espero que vivas intensamente tua vida sobre esta terra e enquanto vivenciar a religião umbandista a pratique todos os dias, sendo livre sempre. Saravá!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Oxóssi- Defensor da Vida

Nós seres humanos somos engraçados em nossos modismos. Uma hora temos que ser, para ficarmos bonitos e saudáveis, vegetarianos, outra hora macrobióticos, enfim uma série de coisas que a mente humana pesquisa, estuda e propõe a milhares de humanos que acabam por seguir. Apesar da verdade ser uma só: somos todos carnívoros ,e isto, faz toda a diferença. Vivemos caçando sem parar e sem nos dar conta disto. Caçamos nos supermercados, shoppings e até na frente da televisão, com um controle remoto. E é próprio dos carnívoros buscar sempre olhar no olho do próximo. Gente que não nos olha nos olhos não é confiável, simplesmente porque não conseguimos, por nosso próprio instinto descobrir se é mais fraco ou mais forte do que nós mesmos. Herbívoros não precisam olhar no olho, pelo simples fato de que sua comida não vai sair correndo.
Como sempre coloquei aqui, vejo os Orixás como uma parte da totalidade do Divino e a minha introdução foi para falar sobre a minha visão de  Oxóssi. Todos falam que Oxóssi é o senhor da prosperidade, regente da inteligência e da saúde, mas ao meu ver é mais que isso, Oxóssi nos encanta com sua beleza porque ele é a própria representação da vida, nos desenhos das matas e das florestas e tudo o que há nelas. Desde a molécula que compõe a terra até a folha mais alta, da mais alta árvore.
Oxóssi é o caçador, é o flecheiro, o cacique e o pajé. Tudo que cura está na mata, e o que mata também, assim como a comida que sustenta, o perigo e o abrigo para o repouso do guerreiro. Em nosso DNA está registrado todas estas coisas sobre a mata, seja por causa de antepassados mais próximos ou mais longínquos, portanto fica fácil imaginar como "funciona" Oxóssi. O que não é fácil é entendermos é que fazemos parte da natureza, embora tentemos renegá-la e colocá-la como algo à parte de nossas vidas.
Geralmente os filhos de Oxóssi apresentam uma inteligência acentuada e podemos correlacioná-la com a Inteligência Divina que há numa floresta: várias formas de vida interdependentes na busca do equilíbrio sempre, porque a natureza não "aceita" nada fora do padrão. A vida prospera numa mata à medida que processa as informações de sobrevivência e se adapta. O mundo civilizado não consegue pensar nas coisas como um todo: tudo é separado- embora não seja. 
Os caboclos de Oxóssi sempre aparecem em grupos, quando estão num terreiro despertam muita alegria, agregam almas em prol da cura - seja em que aspecto for. De fato precisamos muito ser curados da grande doença das civilizações modernas: a solidão. Os filhos de Oxóssi carregam em si as características próprias da energia que os guia, as mentes de seus filhos parecem matas fechadas, nas quais eles se fecham as vezes e nos parecem tão desligados, mas acabam por ver detalhes que não perceberíamos - por exemplo- numa música ou num texto.
No começo de julho os jornais do mundo inteiro estampavam esta notícia: "Cientistas suecos afirmam que reprimir lembranças --entre elas, as ruins-- por muito tempo pode fazer com que as esqueçamos completamente. Mais: o cérebro é capaz de ser treinado para realizar tal feito."  Se há um grande defeito nos filhos de Oxóssi é a incapacidade de esquecer o que ele julga que o magoou. Jamais esquece, mas isto também é próprio da natureza da Mata, que tem como mecanismo de defesa não "esquecer" o que a prejudica, ao contrário dos filhos de Ogum e Yansã que tem que curar logo suas feridas para continuar combatendo. Sempre quando falo de qualidades e defeitos dos filhos de Orixá é ,principalmente, para que eles desenvolvam da melhor forma suas qualidades e entendam e amenizem a proporção de seus defeitos, porque é para isto que servem estas análises.
Oxóssi é de fato um grande conciliador em prol da vida, um caçador e doutrinador de almas em prol do bem comum, a representação verdadeira da felicidade na terra.  É a mata falando para nós, também seus filhos: Eu te deixo ser em paz e prosperidade, me deixe viver também em paz e prosperidade. Okê Caboclo! 

Agradeço o carinho e apoio dedicando esta postagem a : Mirian Gomes Jardim

sábado, 7 de julho de 2012

A Verdade em Yansã

Muito antes de entrar para a Umbanda, quando o céu ficava numa mescla de rosa e alaranjado nos finais de tarde e o terreno todo se iluminava, eu sempre chamava meus filhos para "sentirem" a presença dos anjos na terra. Sempre ficamos quietos contemplando até que aquela maravilha se dissipasse e anoitecesse. Anos se passaram até que eu soubesse que aquele tipo de pôr-de-sol também representava Yansã.
Somos todos imagem e semelhança ao Divino e ,ao meu ver ,o que nos torna assim tão parecidos a Ele é a centelha que nos cabe. Na Umbanda e no Candomblé a centelha que nos forja são inegavelmente os Orixás.  Diz qual é tua natureza e te direi quem és,pois o Orixá fala muito de quem somos e como lidamos com nosso cotidiano. Creio que está mais do que na hora de ampliar o conhecimento sobre a Senhora dos ventos e das tempestades, dos raios que queimam e dos raios que colorem os entardeceres de verão.


Falar que filhos de Yansã são brabos e briguentos ,simplesmente, é simplório demais. Talvez Yansã seja o Leão de Nietzsche em seu texto as Três Metamorfoses do Espírito que colocarei abaixo deste texto para consulta. Yansã é a força que busca a liberdade acima de qualquer coisa e a liberdade é a condição de não se submeter a valores antigos,mas possibilitar que novos surjam, muito bem embasados em conhecimento. Para ser livre é preciso ter a capacidade de mudar sem aviso prévio, assim como os ventos e os pensamentos. Filhos de Yansã que não se movimentam acabam por adoecer físicamente, porque isto vai contra a própria natureza. Esta mesma natureza nos impõe um só medo: a servidão. Nietzche ainda diz o seguinte dos que possuem alma de Leão, que traduz ainda mais Yansã: "Esfaimado, violento, solitário, ímpio, assim deve ser o querer leonino.Libertado de uma felicidade servil, dos deuses e dos cultos, sem medo, terrível, grande e solitário, assim deve ser o querer do verdadeiro. É no deserto que sempre viveram os verdadeiros, tal como os espíritos livres, senhores do deserto." Yansã como Ogum ,são guerreiros solitários. Enquanto Ogum abre caminhos, Yansã os percorre em busca da verdade. Sei que é difícil para alguns pais e mães de santo lidarem com filhos de Yansã, mas há que se ter cuidado. Regras muito duras e inflexíveis, meias verdades e injustiças são ofensas pessoais para filhos deste Orixá. Yansã é uma protetora nata da Umbanda, pois esta religião é viva e está em movimento, então não pode se atrelar a conceitos petrificados. Está fadado ao fracasso e à espada de Yansã aquele que ensina aos filhos de corrente uma coisa e pratica outra. Yansã é retidão de caráter, é o raio que elimina as dúvidas,clareia a escuridão criada pelo homem.

Para os filhos de Yansã tudo é medido,pesado, avaliado na busca da verdade. E para se chegar a um resultado a solidão é companheira. A força do leão que possuem é a energia transformadora da realidade. Os criadores de novas religiões e filosofias foram comparados nas escrituras sagradas a leões: Buda, Krishna, Jesus. Apesar de todos os atributos positivos que aqui coloquei, gostaria de citar Carl Jung que insiste sobre o perigo que representa a alma habitada pelo leão, devido à violência da sua paixão.Romper com o pré-estabelecido e tomar uma direção nova no pensamento é algo doloroso, e os filhos de Yansã suportam esta dor calados. Não conheço nenhum que não se martirize no parir "um novo conceito", uma nova forma menos injusta de conduzir sua existência.
 A comprovação da existência da partícula de Deus, ou Bósson de Higgs, na semana passada me fez repensar na posição de Yansã na Umbanda. Lá no início quando Zélio de Morais se revoltou em uma sessão espírita que não aceitava os espíritos dos mais simples e o impulsionou a criar a religião que hoje praticamos,não seriam os raios de Yansã em busca da verdade? Quando terreiros começam a desmoronar por não praticarem a caridade real e amorosa do Divino, que distinguem por classe social e volume nas carteiras de dinheiro, não seria esta mesma energia que determina o caos? Enquanto o Bósson de Higgs é a partícula que dá massa ao resto das partículas, não seria Yansã , partícula Divina que daria massa ao entendimento humano da fé umbandista? Yansã mais do que Orixá das Almas, é o Orixá da liberdade, do caos que cria a vida em plenitude, protetora aguerrida do livre -arbítro, Senhora da Espada que mais do que apontar a colheita conforme o que foi plantado, cria novas sementes no despertar de homens e mulheres que buscam a vida plena. Eparrey!


O texto citado:

sábado, 16 de junho de 2012

Da Fé à Possessão

Há algum tempo atrás - mas nem tanto assim- era bem comum quando o leite azedava rapidamente numa casa, o dono do sítio ía aos vizinhos para ver se o mesmo fato havia ocorrido em seus lares.  Se positivo era certo que o local estava com uma possessão. Na humanidade este fato é observado desde que se tornaram conhecidas as culturas egípcia, babilônica, assíria e judaica, onde atribuíam-se certas doenças e calamidades naturais à ação dos demônios. E para isto sempre existiram vários rituais de exorcismo - palavra do grego exorkismós, "ato de fazer jurar", pelo latim exorcismu.
Na Umbanda não existem demônios e não se crê no inferno. Ainda não cheguei a uma conclusão se isto é bom ou mal, então gostaria de refletir com você que lê agora alguns pontos importantes. A princípio a Umbanda é a celebração da vida, pois observa e interage com as forças naturais que regem nosso planeta. Todas as entidades representadas na religião tiveram uma relação grande com a Natureza: os índios em seu respeito à mata, os pretos velhos no conhecimento das ervas e manipulação de energias, os boiadeiros e marinheiros na observação e uso dos elementos naturais na própria sobrevivência, os ciganos na adequação da energia e transmutação da mesma devido ao fato de serem andarilhos, das crianças que conseguem enxergar e passar mais claramente a magia em cada elemento novo e por fim os exus/pombogiras guardiões das energias mais sutis por justamente terem adquirido o poder de manipulá-las. 
O médium é a porta , ou melhor, a ponte que possibilita a travessia deste conhecimento até a pessoa que o necessita. Só.  Em um atendimento de caridade ,feito com responsabilidade por um médium ciente, seguem-se alguns princípios básicos: o primeiro é o respeito ao livre arbítrio -nada de amarrações ou induções- ,o segundo é a primazia pelo equilíbrio, nunca fomentando situações que venham a fomentar mais desajustes. Numa brilhante frase de Carl Young que li estes dias visualizei todo um processo em nossa religião: "O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." No caso específico da Umbanda três personalidades se transformam em um atendimento: a entidade, o médium e o consulente. Cada vez que se consegue equilibrar e elevar energias, há sem sombra de dúvida um crescimento e uma evolução conjunta, que beneficia não só o consulente ou ao médium, mas um pequeno microcosmo, como, por exemplo, a família dos dois.
O problema surge quando o médium desavisado, sem conhecimento das leis universais que regem toda e qualquer ação nesta terra, resolve que tem poderes ilimitados e que seu cérebro não tem qualquer outra função que não seja a de manipular em seu próprio proveito qualquer tipo de energia. Alguns umbandistas sofrem de um mal do qual as vezes não se dão conta: o ego super inflado. Então através desta doença, se acham vítimas de todos os outros umbandistas que têm 'inveja" de seus super poderes e vivem "desmanchando" o que fizeram de mal contra a santidade de sua mediunidade. Ou pior, induzem os seus próximos a erro, fazendo amarrações e trazendo o "amor" de volta em três dias. Estes são vítimas inexoráveis de sua própria ignorância, fato que os deixa disponíveis para possessões- pela lei que diz que os iguais se atraem. Neste ponto é que vem minha dúvida- se estas pessoas acreditassem no mal, será que não mudariam suas posturas? De fato , cada um é o que come e com o que alimenta os outros.
A Umbanda, creiam, está passando por um momento de crescimento e muitos estão reavaliando as suas próprias posturas. Todo crescimento envolve o caos, o que precede sempre o nascimento de uma estrela. São muitas as vertentes que nos orientam dentro da própria Umbanda para o caminho da real caridade e equilíbrio. Que Ogum sempre nos permita caminhar pelas estradas retas da verdadeira Umbanda e que Yansã transmute qualquer energia contrária. Axé a todos.


Indico o texto do meu irmão de coração Babalorisá Samir Castro ,que demonstra extrema coerência em seus dizeres sobre o Candomblé: