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domingo, 11 de maio de 2014

Você Não Me Engana......

Foto da Dani- Terreiro Vovó Benta
   Um senhor com um pouco mais de 7 décadas me parou na rua estes dias. Disse que era pra eu parar de
fumar, porque ele havia parado há mais de 30 anos e foi bom. Perguntou se eu estava achando ruim dele me aconselhar, o que neguei veemente: conselhos de gente que tem mais experiência são uma dádiva! Falou também que um lugar legal para rezar é atrás da porta da cozinha, pois ninguém atrapalha. Minha porta da cozinha é de vai e vem, já pensei com meus botões que ia ser um desastre.... Depois de um dedo de prosa ele me convidou pra tomar um café quando pudesse, pois os filhos não davam muita "bola" pra ele. Dias mais tarde soube que ele havia morrido, num cruzamento perigoso, no momento em que ia, rito diário matinal, levar flores para sua mulher no cemitério ,falecida há alguns anos.
Ser médium não é fácil não.Necessita estudo, atenção e dedicação.Além de estar sempre consciente de que nada sabemos. Temos que agir sempre com fé e amor, seguros que mãos mais precisas nos conduz. Médium, tenha sempre em mente que seus atos, algumas vezes, não são direcionados a uma só pessoa. Quando passamos mensagens de Aruanda, quando transmitimos o amor que de lá vem, não precisamos saber a quem. Fiquei comovida com meu amiguinho Arthur e fiz um texto "Passarinhos de Aruanda" que versa sobre vida e morte para uma criança de três anos, como quem me acompanha sabe.  A avó do Arthur, que comentou no texto, faleceu 4 meses depois, mas foi com a certeza que Arthur já sabia o que era o desencarne.
Não, não estou falando que ser médium é saber lidar com morte, antes falo que precisamos saber lidar com o Amor Maior, a vida que não acaba. Isto não é fácil. Médium umbandista pode decorar ponto riscado e cantado, pode saber nomes de entidades e designação e competência de cada Orixá, mas nunca, em tempo algum, conseguirá medir e pesar as almas das entidades que sustentam nossa fé e de onde vem o Amor que têm em nos auxiliar.
As entidades de Umbanda vem, no amor de Oxalá, nos auxiliam e quem sabe realmente quem são? Ninguém ! Porque para quem ajuda, com verdadeira caridade, simplesmente não importa. Para eles pelo menos não. Mas nós? Quem somos nós?
Médium é a pessoa que serve de ponte entre o lado de lá e o de cá. Só. A intenção do desenvolvimento é que ninguém se dê conta de que há pontes. O mediunidade não é importante? É sim,na medida em que nos permitimos aprender com ela. Levei anos para entender o por quê de eu ter esta "ligação" com o além. Não cheguei a uma idéia conclusiva, mas uma parte eu sei que é o entendimento da caridade.
Amor e caridade tinham que ser matérias que estudássemos com afinco. Às vezes a gente pensa uma coisa e as Entidades nos mostram outra. Somos todos crianças na Umbanda. Temos o grande prazer de nos surpreender sempre! Tenho apreendido conhecimentos na minha alma que fazem com que eu veja cores mais intensas e aí que vem o lado bom de ser médium: sentir a plenitude do Bem Maior em vida.
Não sou perfeita e posso dizer também que sou bem "reclamona". O Divino tem uma paciência ímpar comigo. Por que o Senhor fez isto-ou-por que não fez aquilo? Aí o tempo me mostra a verdade.Creio que se a maioria dos umbandistas acreditassem no Tempo as coisas seriam diferentes. O Tempo é o olhar do preto e da preta velha sobre nossas dores, dilemas, tristezas e basta um gole de café deles , um pedaço de pão, um cheiro de arruda para tudo mudar. Eu sei, eu sinto.
Neste dia 13 de maio gostaria que você que leu este texto faça uma coisa para trazer alegria ao seu lar. Pai Maneco me dizia que as pretas cozinheiras traziam alegria com seus doces. Faça um doce em sua casa e deixe a alegria do Tempo preencher todas as lacunas de sua vida: das saudades, das tristezas, da correria do dia-a-dia. Seja feliz! Saravá todos os pretos e pretas velhas! Saravá você!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Flores da Umbanda



Há uns anos atrás, li um texto no qual Chico Xavier falava que, para melhorar a energia de um lar ,bastava plantar rosas no jardim. Comecei então a plantá-las, na casa de meus pais. Aqui no sítio bem que tentei, mas o cavalo as tratou como iguarias culinárias. Na Umbanda o uso das flores é muito importante, sendo que seu uso iniciou com a própria religião.
Todo evento da criação da Umbanda, pelo médium Zélio de Morais em 1908, começou com ele levantando,no meio de uma sessão espírita, falando: "Aqui está faltando uma flor". Saiu da sala indo ao jardim e voltando após com uma flor, que colocou no centro da mesa. Essa atitude causou um enorme tumulto entre os presentes. Restabelecidos os trabalhos, manifestaram-se nos médiuns kardecistas espíritos que se diziam pretos escravos e índios.
Desde o início da humanidade, as flores foram associadas com o Sol, por se voltarem para ele,e , assim como ele dissiparem a escuridão, simbolizando a energia vital, o final do inverno e a vitória sobre a morte. O Lírio de Oxum por exemplo, segundo a mitologia antiga, teria nascido do leite de Hera, que gotejava na Terra no mesmo tempo em que era criada a Via Láctea. Outra lenda diz que o perfume dos lírios espanta serpentes e por parecer com um cetro aparecem em muitos brasões de famílias da Europa antiga.
Fitzgerald-1859-Morte adornada de rosas
De todas as flores talvez a que mais tenha poder em nosso espírito seja a rosa. Na antiguidade, esta flor remonta o mito de Adônis , o amado de Afrodite, de cujo sangue teriam brotado as primeiras rosas, assim se tornaram símbolo do renascimento e do amor que sobrevive a morte.No século 1a.C. os romanos faziam uma Festa das Rosas em homenagem a seus mortos, e até hoje na Itália o domingo de Pentecostes é considerada a "Páscoa das Rosas".Em contraposição no culto a Dionísio, deus do Vinho, era comum as pessoas se coroarem de rosas,pois acreditavam que abrandava o calor da bebida e impedia que alcoolizados contassem seus segredos, por este motivo ela se tornou também símbolo da reserva e da discrição. Assim esta flor começou a ser desenhada em cima dos confessionários - "sub-rosa", ou seja, sob o signo do silêncio e da discrição. Na iconografia eclesiástica tornaram-na a "Rainha das Flores" simbolo da rainha celeste,Maria.
"Da rosa sai o mel que alimenta abelhas" primeiro símbolo Rosa Cruz
Enquanto as rosas vermelhas representam desde os primórdios o amor terreno, as brancas são relatadas em sagas e lendas como a flor que simboliza a morte. Os alquimistas viam nas rosas brancas e vermelhas o sistema dualístico com elementos dos dois princípios originários: o enxofre e o mercúrio. A rosa vermelha também é considerada nas tradições antigas, um símbolo de honra nas guerras para os oficiais do exército-em especial os romanos- pois Marte (deus da guerra) teria nascido de uma rosa. 
Uma gira de umbanda tem o formato de uma flor, onde o veio principal de energia - o caule- vem do congá. São muitas as flores de Umbanda, as que representam a sabedoria, a discrição como os pretos e as pretas velhas, a vitalidade e a batalha diária pela vida como os caboclos, a alegria das cores da existência como as flores das crianças, ciganas e boiadeiras, e dos necessários resgates como os das pomba-giras.Na minha opinião ainda de aprendiz, talvez a mais importante flor que exista na Umbanda seja a que floresça no coração do médium,que deva ser sempre cuidada com verdade, amor, caridade e consciência de que nosso invólucro é provisório, porque é dela que virá o perfume que envolverá outros em seu caminhar. Saravá!

sábado, 16 de junho de 2012

Da Fé à Possessão

Há algum tempo atrás - mas nem tanto assim- era bem comum quando o leite azedava rapidamente numa casa, o dono do sítio ía aos vizinhos para ver se o mesmo fato havia ocorrido em seus lares.  Se positivo era certo que o local estava com uma possessão. Na humanidade este fato é observado desde que se tornaram conhecidas as culturas egípcia, babilônica, assíria e judaica, onde atribuíam-se certas doenças e calamidades naturais à ação dos demônios. E para isto sempre existiram vários rituais de exorcismo - palavra do grego exorkismós, "ato de fazer jurar", pelo latim exorcismu.
Na Umbanda não existem demônios e não se crê no inferno. Ainda não cheguei a uma conclusão se isto é bom ou mal, então gostaria de refletir com você que lê agora alguns pontos importantes. A princípio a Umbanda é a celebração da vida, pois observa e interage com as forças naturais que regem nosso planeta. Todas as entidades representadas na religião tiveram uma relação grande com a Natureza: os índios em seu respeito à mata, os pretos velhos no conhecimento das ervas e manipulação de energias, os boiadeiros e marinheiros na observação e uso dos elementos naturais na própria sobrevivência, os ciganos na adequação da energia e transmutação da mesma devido ao fato de serem andarilhos, das crianças que conseguem enxergar e passar mais claramente a magia em cada elemento novo e por fim os exus/pombogiras guardiões das energias mais sutis por justamente terem adquirido o poder de manipulá-las. 
O médium é a porta , ou melhor, a ponte que possibilita a travessia deste conhecimento até a pessoa que o necessita. Só.  Em um atendimento de caridade ,feito com responsabilidade por um médium ciente, seguem-se alguns princípios básicos: o primeiro é o respeito ao livre arbítrio -nada de amarrações ou induções- ,o segundo é a primazia pelo equilíbrio, nunca fomentando situações que venham a fomentar mais desajustes. Numa brilhante frase de Carl Young que li estes dias visualizei todo um processo em nossa religião: "O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." No caso específico da Umbanda três personalidades se transformam em um atendimento: a entidade, o médium e o consulente. Cada vez que se consegue equilibrar e elevar energias, há sem sombra de dúvida um crescimento e uma evolução conjunta, que beneficia não só o consulente ou ao médium, mas um pequeno microcosmo, como, por exemplo, a família dos dois.
O problema surge quando o médium desavisado, sem conhecimento das leis universais que regem toda e qualquer ação nesta terra, resolve que tem poderes ilimitados e que seu cérebro não tem qualquer outra função que não seja a de manipular em seu próprio proveito qualquer tipo de energia. Alguns umbandistas sofrem de um mal do qual as vezes não se dão conta: o ego super inflado. Então através desta doença, se acham vítimas de todos os outros umbandistas que têm 'inveja" de seus super poderes e vivem "desmanchando" o que fizeram de mal contra a santidade de sua mediunidade. Ou pior, induzem os seus próximos a erro, fazendo amarrações e trazendo o "amor" de volta em três dias. Estes são vítimas inexoráveis de sua própria ignorância, fato que os deixa disponíveis para possessões- pela lei que diz que os iguais se atraem. Neste ponto é que vem minha dúvida- se estas pessoas acreditassem no mal, será que não mudariam suas posturas? De fato , cada um é o que come e com o que alimenta os outros.
A Umbanda, creiam, está passando por um momento de crescimento e muitos estão reavaliando as suas próprias posturas. Todo crescimento envolve o caos, o que precede sempre o nascimento de uma estrela. São muitas as vertentes que nos orientam dentro da própria Umbanda para o caminho da real caridade e equilíbrio. Que Ogum sempre nos permita caminhar pelas estradas retas da verdadeira Umbanda e que Yansã transmute qualquer energia contrária. Axé a todos.


Indico o texto do meu irmão de coração Babalorisá Samir Castro ,que demonstra extrema coerência em seus dizeres sobre o Candomblé:

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Erva Boa!

Tem planta que não vinga aqui no sítio. Você pode fazer de tudo,mas não vão adiante. Louro, alecrim, café e arruda são algumas delas. Não sei exatamente o porquê, mas já tentamos de tudo. Em compensação pimenta ,boldo, hortelã, pitangueira e carqueja é só piscar que nascem aos montes. A natureza é cheia de mistérios, que os que são da terra os resolvem rapidamente.
Na Umbanda, que trata da manipulação das energias naturais, não há como negar a grande força e sabedoria dos pretos. A palavra certa, o conselho certeiro, a manipulação rápida da energia são fatos concretos que observamos numa primeira impressão.Em nossas mentes , como falei no post anterior, associamos as pretas a doceiras, mas há mais uma característica unida à imagem delas: as benzedeiras. Por sua vez, se formos pensar nas benzedeiras a erva que é indissociável é a arruda.
Poucos sabem ,mas a Arruda é originária da Ásia. Na Grécia antiga, ela era usada para tratar diversas enfermidades, mas seu ponto forte era mesmo contra as forças do mal. As mulheres romanas costumavam andar pelas ruas sempre carregando um ramo de arruda na mão, pois diziam que era para se defenderem contra doenças contagiosas mas, principalmente, para afastar todos os males que iam além do corpo físico.William Shakespeare, na obra Hamlet, se refere à arruda como sendo "a erva sagrada dos domingos". Dizem que ela passou a ser chamada assim, porque nos rituais de exorcismo, realizados aos domingos, costumava-se fazer um preparado à base de vinho e arruda que era ingerido pelos "possessos" antes de serem exorcizados pelos padres.No século XVI deu origem a uma estória curiosa: quando morriam em Londres 7.000 pessoas por semana com a peste, e as casas atingidas eram marcadas com uma cruz vermelha, alguns ladrões não se incomodavam e entravam para roubar e não eram atingidos pela peste. O motivo: um famoso vinagre, dos quais um dos principais componentes é a arruda, num galão de vinagre de vinho junto com a sálvia, losna, menta, alecrim e lavanda, temperadas com alho, cânfora, noz moscada, cravo e canela, constituindo um poderoso anti-séptico. Essa mistura ficou conhecida como vinagre dos quatro ladrões. Já Michelangelo e Leonardo da Vinci, afirmaram que foi graças aos poderes metafísicos da arruda que ambos tiveram sensíveis melhoras em seus trabalhos de criatividade.
No Brasil pós-escravidão a Arruda era vendida nas ruas pelas ex-escravas, embora antes já o fizessem como mostra a gravura que postei aqui de Debret. No Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, num texto de Carlos da Costa Pereira encontramos o seguinte: "Para afugentar os sortilégios, as negras costumavam trazê-la "nas pregas dos turbantes, nos cabelos, atrás da orelha e mesmo nas ventas", e as brancas usavam-na em geral escondida no seio". Acrescenta que quando as negras, vendedoras de frutas, encontravam uma concorrente tida por inimiga, costumavam exclamar: 'Cruz, Ave Maria, arruda', colocando subitamente os dois dedos index sobre a boca", e para se acautelarem "de um perigo iminente, elas diziam: 'toma arruda, ela corrige tudo'". Nas Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida , deparam-se-nos duas referências ao uso da arruda na época em que se situam as cenas do romance. A primeira, quando o autor descreve o "traje habitual" da comadre, que "era como o de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma figa de ouro ou de osso". E a outra, quando narra os preparativos feitos para o momento em que a Chiquinha daria à luz, sendo improvisado "um oratório com uma toalha, um copo com arruda e uma imagem de Nossa Senhora da Conceição..."A arruda também entrou na poesia popular brasileira, tendo Carlos Góis  registrado as seguintes quadras — colhidas em Minas Gerais, a primeira, e no Ceará, a segunda — em que se fazem alusão a essa planta:
                                                                                                                    Arruda tem vinte folhas,
                                      No meio seu arrodeio;
                                      Trata de mim que sou teu,
                                      Deixa de amores alheios.
                                      Arruda também se muda
                                      Do sertão para o deserto
                                      Também se ama de longe
                               Quem não pode amar de perto.

Aliás, estes versos atestam não só a popularidade como a adaptabilidade a regiões indiscriminadas, da planta que, pelas suas pretensas virtudes, os portugueses trouxeram para os seus domínios neste lado do Atlântico".


Arruda serve para quase tudo. No meu entender a mistura da energia de qualquer erva em especial com a linha dos Pretos, que fundamenta a Umbanda, potencializa não só a energia que está sendo manipulada, mas nos envolve de forma carinhosa  na sabedoria e no alento da certeza de crescimento. Não somos nós que ajudamos os pretos e pretas a andarem no terreiro, são eles que nos calçam os pés na bondade e no amor, na alegria de viver, para que nossos pés possam pisar firmes em direção a verdadeira caridade - esta sim o grande mistério da humildade destas almas. 


Neste texto me baseei no estudo feito na Faculdade Integrada Espírita, aqui de Curitiba, por Ana Lúcia Trinquinato Toriani e Lourenço de Oliveira

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Libertador

Lá pelos idos do século XVIII, era bem comum os ciganos passarem nos sítios oferecendo-se para curar males através de rezas. Reza a lenda que estas orações se transformaram em cantilenas, e que as crianças as reproduzem até hoje, transformadas pelo tempo. Antes que pensem em absurdos, não acredito que houvesse alguma reza com  "atirei o pau no gato", mas é inegável que toda criança reproduz o que vê, desde que o mundo é mundo.
Syrus, meu caçula, tinha um boneco chamado Marcos Valério. Tentei que ele mudasse o nome, porque este cara não era , por assim dizer, do bem. Marcos Valério está em todos os canais de tv mamãe, como não pode ser? Bom, hoje Marcos Valério deve estar em alguma caixa que deixei lá nos fundos, sei lá. Mais recentemente, este mesmo elemento da minha prole, veio me expor uma brincadeira divertidíssima na escola: terapia. Consiste no seguinte: uma criança vai pro meio, conta o que não sai da cabeça dela, dá uma tremidinha (não sei porquê), e nunca mais pode falar no assunto. E perguntei quem tinha inventado esta brincadeira: existe faz muito tempo, não jogava na escola? Não, definitivamente no meu tempo ninguém jogava Syrus.
É a dita "despamonhabilização" da cultura, já falada pelo professor Mário Sérgio Cortella, ou seja, todo mundo compra pamonha pronta e ninguém sabe como se faz. 
Vendo as crianças em um ataque de fúria na Vila Mariana ,São Paulo, estes dias na tv, senti um misto de tristeza ,impotência e raiva. Menores de doze anos falando de seus direitos constitucionais e duvido, com toda a certeza deste mundo, que saibam o que é um verbo, um adjetivo e muito menos saibam escrever os próprios nomes. Uma psicóloga falou na Tv que se os levassem a locais interessantes como cinema ,teatro, talvez conseguissem voltar à vida normal. Sei. Em nenhum jornal vi que a solução seria serem integrados a uma família, mesmo que custeada pelo estado. Me fez lembrar da história dos elefantes jovens que formaram gangues e destruiram cidades na Índia e só se acalmaram, depois que,  uma professora de psicologia de animal dos EUA, Gay Bradshaw, descobriu que a causa de toda esta revolta é que os elefantes adolescentes não tinham um líder mais velho que os orientasse. Colocados em contato com os mais velhos, voltaram ao normal.
Poxa, é impossível que as pessoas não enxerguem o quanto é necessária a sabedoria dos mais experientes em vida ao nosso lado.Os ciganos respeitam e prezam seus membros mais velhos, os índios da mesma forma, os pretos velhos na Umbanda são nosso referencial, e estas crianças que referencial terão no Brasil? Quando eu era criança ir a um cinema era um evento, mas não mudou minha visão de vida. Por diversas vezes, em situações difíceis, cada palavra que meu pai me disse até hoje, que minha mãe falava, que meus avós falaram, me vem à mente vívidas e coloridas e me ajudam, mesmo sem eles saberem. 
Éramos , lá em casa, em quatro filhos, cuja diferença de um para o outro de pouco mais de um ano. Imagino o que minha mãe passava. Meu pai, em certa altura e como o terreno era grande mandou fazer vários canteiros, cada qual com o tamanho de uma cama de solteiro. Plantávamos, cuidávamos da terra e tínhamos que regar todos os dias, coisa que meu pai também fazia. Era muito bom e cansativo.O Dyogo mesmo me dizendo que não sabe que religião vai seguir, me falou que a vontade dele é que em volta da casa dos pretos, lá no terreiro fossem plantados pés de cana-de-açúcar.Ele inclusive deu para meu Pai de Santo algumas mudas. Porque ele imagina que na época da colheita da cana, os médiuns poderiam ir ali e se servir e enquanto comem a cana( que ele adora), poderiam falar com mais tranquilidade com os pretos-velhos, explicando melhor seus problemas. O Dyogo ainda não sabe, mas ele entende bem de Umbanda.
A minha pergunta é a seguinte: até quando as crianças serão escravas de um sistema que nós mesmos criamos? Que criança é protegida por lei e não pode ser castigada -e não estou falando de bater e sim deixar de castigo mesmo- e tolhida em seus quereres? Que dizer não é impensável.Que pai e mãe ,avós e tios devem ser tratados de igual para igual? Meu pai não deixa que nenhum neto o chame de avô, mas o respeito que todos têm com ele é inquestionável. Se você tirar a lagarta antes do tempo de dentro do casulo, certamente não voará. Filhos precisam de pais.
Tive a grata honra de ver esta foto acima do sr. Francisco Prestes publicada pelo seu tataraneto, o Pai de Santo Ricardo Barreira. Este senhor há décadas atrás, dava refúgio e ajudava negros que fugiam da escravidão nos rincões deste país. Explicando o que ele fazia, o Ricardo Barreira me fala o seguinte: " Em cada negro existe um branco que um negro libertou. A escravidão escravizou os brancos que escravizaram os negros." Francisco deixou um legado, embora muitos não saibam. Os verdadeiros libertadores não precisam de nome. Precisam existir. O Ricardo continua com o ofício da família, ou seja, libertando gente escrava, embora que de outras correntes.
Quando deixamos crianças ter ataques de fúria, por total abandono, tornamo-nos escravos de uma ditadura da educação irresponsável - embora seja pertinente ao Estado- também nos diz respeito. Somos escravos do amanhã , do que eles vão se tornar. É hora de uma atitude, de libertarmos uns aos outros.
Nos terreiros de Umbanda espalhados pelo Brasil , mesmo que pequenos, têm condições de auxiliar no processo de educação. Tomo mais uma vez o exemplo do Grupo Mocidade na Umbanda do Terreiro do Pai Maneco. Neste final de semana o Dr. Cláudio Paciornik que falará aos jovens, dentre outras coisas ,sobre o câncer. Educando se liberta a alma.

Se quiser mais detalhes sobre os projetos do Grupo Mocidade na Umbanda escreva para: mocidade.tpm@gmail.com