Mostrando postagens com marcador Ricardo Barreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Barreira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Libertador

Lá pelos idos do século XVIII, era bem comum os ciganos passarem nos sítios oferecendo-se para curar males através de rezas. Reza a lenda que estas orações se transformaram em cantilenas, e que as crianças as reproduzem até hoje, transformadas pelo tempo. Antes que pensem em absurdos, não acredito que houvesse alguma reza com  "atirei o pau no gato", mas é inegável que toda criança reproduz o que vê, desde que o mundo é mundo.
Syrus, meu caçula, tinha um boneco chamado Marcos Valério. Tentei que ele mudasse o nome, porque este cara não era , por assim dizer, do bem. Marcos Valério está em todos os canais de tv mamãe, como não pode ser? Bom, hoje Marcos Valério deve estar em alguma caixa que deixei lá nos fundos, sei lá. Mais recentemente, este mesmo elemento da minha prole, veio me expor uma brincadeira divertidíssima na escola: terapia. Consiste no seguinte: uma criança vai pro meio, conta o que não sai da cabeça dela, dá uma tremidinha (não sei porquê), e nunca mais pode falar no assunto. E perguntei quem tinha inventado esta brincadeira: existe faz muito tempo, não jogava na escola? Não, definitivamente no meu tempo ninguém jogava Syrus.
É a dita "despamonhabilização" da cultura, já falada pelo professor Mário Sérgio Cortella, ou seja, todo mundo compra pamonha pronta e ninguém sabe como se faz. 
Vendo as crianças em um ataque de fúria na Vila Mariana ,São Paulo, estes dias na tv, senti um misto de tristeza ,impotência e raiva. Menores de doze anos falando de seus direitos constitucionais e duvido, com toda a certeza deste mundo, que saibam o que é um verbo, um adjetivo e muito menos saibam escrever os próprios nomes. Uma psicóloga falou na Tv que se os levassem a locais interessantes como cinema ,teatro, talvez conseguissem voltar à vida normal. Sei. Em nenhum jornal vi que a solução seria serem integrados a uma família, mesmo que custeada pelo estado. Me fez lembrar da história dos elefantes jovens que formaram gangues e destruiram cidades na Índia e só se acalmaram, depois que,  uma professora de psicologia de animal dos EUA, Gay Bradshaw, descobriu que a causa de toda esta revolta é que os elefantes adolescentes não tinham um líder mais velho que os orientasse. Colocados em contato com os mais velhos, voltaram ao normal.
Poxa, é impossível que as pessoas não enxerguem o quanto é necessária a sabedoria dos mais experientes em vida ao nosso lado.Os ciganos respeitam e prezam seus membros mais velhos, os índios da mesma forma, os pretos velhos na Umbanda são nosso referencial, e estas crianças que referencial terão no Brasil? Quando eu era criança ir a um cinema era um evento, mas não mudou minha visão de vida. Por diversas vezes, em situações difíceis, cada palavra que meu pai me disse até hoje, que minha mãe falava, que meus avós falaram, me vem à mente vívidas e coloridas e me ajudam, mesmo sem eles saberem. 
Éramos , lá em casa, em quatro filhos, cuja diferença de um para o outro de pouco mais de um ano. Imagino o que minha mãe passava. Meu pai, em certa altura e como o terreno era grande mandou fazer vários canteiros, cada qual com o tamanho de uma cama de solteiro. Plantávamos, cuidávamos da terra e tínhamos que regar todos os dias, coisa que meu pai também fazia. Era muito bom e cansativo.O Dyogo mesmo me dizendo que não sabe que religião vai seguir, me falou que a vontade dele é que em volta da casa dos pretos, lá no terreiro fossem plantados pés de cana-de-açúcar.Ele inclusive deu para meu Pai de Santo algumas mudas. Porque ele imagina que na época da colheita da cana, os médiuns poderiam ir ali e se servir e enquanto comem a cana( que ele adora), poderiam falar com mais tranquilidade com os pretos-velhos, explicando melhor seus problemas. O Dyogo ainda não sabe, mas ele entende bem de Umbanda.
A minha pergunta é a seguinte: até quando as crianças serão escravas de um sistema que nós mesmos criamos? Que criança é protegida por lei e não pode ser castigada -e não estou falando de bater e sim deixar de castigo mesmo- e tolhida em seus quereres? Que dizer não é impensável.Que pai e mãe ,avós e tios devem ser tratados de igual para igual? Meu pai não deixa que nenhum neto o chame de avô, mas o respeito que todos têm com ele é inquestionável. Se você tirar a lagarta antes do tempo de dentro do casulo, certamente não voará. Filhos precisam de pais.
Tive a grata honra de ver esta foto acima do sr. Francisco Prestes publicada pelo seu tataraneto, o Pai de Santo Ricardo Barreira. Este senhor há décadas atrás, dava refúgio e ajudava negros que fugiam da escravidão nos rincões deste país. Explicando o que ele fazia, o Ricardo Barreira me fala o seguinte: " Em cada negro existe um branco que um negro libertou. A escravidão escravizou os brancos que escravizaram os negros." Francisco deixou um legado, embora muitos não saibam. Os verdadeiros libertadores não precisam de nome. Precisam existir. O Ricardo continua com o ofício da família, ou seja, libertando gente escrava, embora que de outras correntes.
Quando deixamos crianças ter ataques de fúria, por total abandono, tornamo-nos escravos de uma ditadura da educação irresponsável - embora seja pertinente ao Estado- também nos diz respeito. Somos escravos do amanhã , do que eles vão se tornar. É hora de uma atitude, de libertarmos uns aos outros.
Nos terreiros de Umbanda espalhados pelo Brasil , mesmo que pequenos, têm condições de auxiliar no processo de educação. Tomo mais uma vez o exemplo do Grupo Mocidade na Umbanda do Terreiro do Pai Maneco. Neste final de semana o Dr. Cláudio Paciornik que falará aos jovens, dentre outras coisas ,sobre o câncer. Educando se liberta a alma.

Se quiser mais detalhes sobre os projetos do Grupo Mocidade na Umbanda escreva para: mocidade.tpm@gmail.com

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Fames Magistra*


A vida é simples. Por associação e reflexão, descobri isso de tanto escutar painho falando que Umbanda é simples. Daí, estes dias li outra verdade brilhante, de outro pai de santo: “O que nos dá proteção são nossas atitudes. E nada além disso. Tudo bem, você pode ter seus protetores espirituais, como acredito que tenha, mas será sua conduta que lhe fará merecedor ou não da ação deles.”
Ele se chama Ricardo Barreira e é um inovador também. Não sei se foi pelo fato dele falar que “seus pensamentos estavam pulsando no ritmo dos tambores, mais precisamente o no ritmo do barravento**” que me chamou a atenção. Então me permitam ir desenhando minhas letras no mesmo tom...
Falo sempre do potencial da natureza e de nossa urgência em preservá-la pois fazemos parte dela. Os Orixás , energias que fazem parte do Divino que é Uno, estão em nós. Um outro pai de santo do candomblé, o Rafael, que há anos freqüenta o nosso terreiro para tomar passes, me explicava na última segunda: quando os adeptos da religião dele exteriorizam no terreiro o Orixá (ou seja a energia Divina) é o que está dentro deles, não como na Umbanda que recebemos influência nas giras de entidades externas. Nós umbandistas e os adeptos do candomblé temos um grande respeito por nossos Orixás.
A maioria das pessoas ao saberem seu Orixá, por empolgação e desconhecimento, se limitam aos aspectos negativos que os filhos daquela energia têm. E corroboram para que eles sejam intensificados e se auto-mistificam negativamente . Ser filho de algum Orixá não é para botar medo nos outros e justificar seus defeitos, é para o seu próprio crescimento espiritual, correção e auto conhecimento. Aprendi com painho e sua coerência me encanta mesmo. Nem todas as características são iguais às citadas em estudos, então também não temos que nos adaptar a elas. Temos que ser quem somos e nos aprofundar na fé, na humildade e na caridade.
Não acredito em inteligência sem evolução. A mediunidade existe em todas as religiões e até fora delas. Cansei de dizer que existem ateus com uma espiritualidade e um discernimento de caridade muito mais elevados do que muitos religiosos. Reflito incessantemente sobre meus atos, pois tenho sido agraciada com muito conhecimento. E conhecimento é como comida, aquela elaborada com simplicidade e bom tempero, mas que deve ser partilhada antes que se estrague com o tempo. Aqui cito novamente o Ricardo: “Quando eu tinha menos conhecimento sobre as coisas da matéria e do espírito, era muito bem definido o que era uma coisa e o que era outra em minha cabeça. E o fato de que era bem definido não quer dizer que a definição estava correta.”
Ser médium , ou seja um intermediário entre o lado de lá e o de cá, não te torna um super homem ,me desculpe a franqueza. Demorei a aprender isto. Não pensem que é fácil! De repente acontecem coisas maravilhosas na gira, através de sua humilde pessoa e a empolgação faz com que você se sinta o máximo. E vire um monstro. Não é por aí.
Gostaria aqui de citar uma conversa entre seo Capa Preta (entidade que recebo) a Dona Maria Molambo (na minha amiga Mariana) e um consulente. Seo Capa escuta dele que como médium não consegue incorporar porque não fica inconsciente. Seo Capa chama a Molambo e pergunta: quantas médiuns suas são inconscientes? Ela rapidamente responde: nenhuma! – para um pouco e volta-se para o consulente e fala: O grande problema são os seres humanos, estes estão cada vez mais inconscientes!- e eu, consciente que estava, mais uma vez fui agraciada com tão bela reflexão.
Vamos ser mais conscientes com relação à natureza, ao próximo e a nós mesmos. Vamos dirigir amor e respeito a cada ser vivo e a nós mesmos. Tudo fica mais fácil com o tempero da humildade. Nada está separado, porque se tratarmos as coisas em separado incorreremos em erro. Tenho um grande exemplo. Em 1933 surgiu a primeira lei exemplar de proteção aos animais. Perfeita. Quem fez a lei se colocou contra disponibilizar os animais para que lhe retirassem ainda vivos o coração, esmagassem o crânio ou cortassem as genitálias, somente “para observar como os órgãos trabalham e quais conseqüências acontecem após a perda dos mesmos.” Bonita iniciativa não? Foi criada por Hitler.Termino ao som do barravento....

* Fames Magistra- termo em latim que siginifica: A necessidade é mestra
** barravento é o toque dos atabaques para Yansã. Muito lindo por sinal...

A foto é da brilhante amiga e parceira Nely Rosa.

Leia o texto completo do Ricardo Barreira, que colocou um nome bem sugestivo:



Sobre o protetor de animais citado no texto: