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domingo, 4 de janeiro de 2015

Orixá de 2015 - Jurema

Esperava por um sinal para escrever novamente. A Umbanda é uma religião fascinante, mas o que tenho experimentado estes anos todos, assim como alguns membros por este Brasil afora, são acúmulos de decepções com os vivos que dela fazem parte. De manipulação das falas de entidades à corrupção dos valores principais em prol do poder e do dinheiro. 
Sei que há muito o que se esperar da Umbanda. A magia da manipulação da energia pela palavra e pelos elementos inerentes a ela, têm trazido cura às almas mais aflitas. Contudo, infelizmente o que se vê é uma religião doente, mais do que o Alzheimer identificado brilhantemente pelo Papa na Igreja Católica, estamos sofrendo de Escoliose, onde a Coluna Vertebral da religião- amor ,fé e caridade- é desviada pela má postura de alguns dirigentes. 
A Umbanda foi criada por Zélio e pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas para servir aos mais simples, não para explorá-los. Não tenho pretensão de ser critica da religião, antes gostaria de praticá-la com o amor e dedicação e é o que tenho feito. Com o apoio de alguns amigos e de mensagens de entidades que vieram através de médiuns que não sabiam das minhas inquietações, resolvi abrir minha própria gira.  
Apesar de ser uma casa comandada por Ogum Beira Mar e Yansã, toda nossa força provém da Jurema, grande sustentadora da Umbanda e de todos seus rituais. Conto a vocês isto , para que , assim como eu, não esmoreçam na fé e com os pés descalços saibam que podemos manter nossa coluna ereta em paz, caridade e amor. Há infinitas almas sofredoras neste plano, além das nossas, que merecem e precisam do que as entidades possam oferecer para que trilhem seu caminho com passos mais firmes.
Somos todos responsáveis e mediunidade não é brinquedo. 2015 iniciou numa quinta feira - que é dedicada ao Caçador de Almas- Oxóssi, esta energia dará a tônica de nossas metas espirituais. Há vertentes, as quais acredito- que dizem que o ano é regido por Ogum e Yemanjá, que no meu entendimento remete à energia de entidades de Ogum Beira Mar, especializadas na cura do ser espiritual.Há outros ainda que exortam à força feminina das Yabás preenchendo os ares de 2015, assim potencializando nosso poder gerador.
Umbanda é,antes de tudo observação. Não há como entender seus ciclos sem observar. Creio que estaremos envolvidos pelo espírito do Caçador de Almas, com o intuito de curar corpos espirituais e aumentar nossa capacidade geradora de luz.E tudo isto unido é também a Jurema Sagrada.
A luta não é pequena, mas juntos seremos fortes, em prol do bem comum. Quando se inicia uma nova caminhada é comum alguns que supostamente nos apoiam darem as costas, por uma infinidade de razões menores ,mas a estes também se aplica a lei do Destino. Esta lei explica que tudo que te acrescenta e te diminui também são aprendizados valorosos. Confio nas entidades que trabalham comigo e que regem esta nova Umbanda que estamos praticando, confio em meus Orixás regentes e na energia que emana do Divino, que está a disposição de todos que não se furtarem à luta pelo bem comum.
Aos poucos irei postando aqui mensagens deste novo tempo em que me encontro e espero que sejam informações que acrescentem à vida de cada um de vocês! Saravá 2015!

Quem quiser mais informações pode me escrever: addestefani@hotmail.com

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Entre Tutu Marambá e o Axé

Foto de uma ama negra em Salvador-1870 autor desconhecido
Tutu Marambá não venhas mais cá, Que o pai do menino te manda matar ... Existem muitas variações nesta cantiga de ninar bem antiga, mas o Tutu Marambá ou Marambaia é o mesmo. Pra quem nunca ouviu falar, esta cantilena foi criada pelas amas negras , no tempo da escravidão, para fazer com que os meninos e meninas brancos que cuidavam dormissem logo e pudessem descansar. Tutu é um termo da nação africana, provavelmente de Angola que representa sempre o monstro - o bicho-papão. Maramba ou Marambaia é um termo indígena associado.  Estas lindas amas negras, inegavelmente compositoras espertas, associaram ainda às cantilenas infantis elementos de sua religião, disfarçados nos santos católicos. Uma musiquinha que cantava sem parar na minha infância era: "São João Da Ra Rão,Tem uma gaita-ra-rai-ta,Que quando toca-ra-roca,Bate nela..." era cantada pelas negras para crianças mas também era uma espécie de oração para Xangô, assim também como esta outra música: "Capelinha de Melão é de São João,É de Cravo é de Rosa é de Manjericão..."
Havia cantos infantis para tudo, um meio de invocar as energias da natureza. Um específico para cura, na linha de Oxóssi: "Pelas vossas chagas,Pela vossa cruz,Livrai-nos da peste,Senhor Bom Jesus.Glorioso Mártir
São Sebastião,Livrai-nos da peste,São Sebastião." Cuidando dos filhos dos patrões, não havia como não se afeiçoar a eles. E quem vê a Umbanda de fora pode até achar estranho em uma gira ver espíritos de pretos e de algumas crianças brancas trabalhando, mas no fundo tem uma lógica. Estas crianças viram suas amas benzendo, costurando e curando com seus Orixás. E como o poder de armazenamento mental dos pequenos é grande, aprendiam tudo muito rápido. É lógico que uma criança na Umbanda vem com uma energia muito maior porque é um espirito que tem na verdade centenas de nossos anos neste plano.
Estou chegando num ponto de visão da Umbanda que me emociono com muitas coisas. Estes dias vendo nosso membro de corrente , o querido João de apenas sete anos tocando atabaque com alegria indisfarçável, me comoveu. O acantonamento da Mocidade da Umbanda no Terreiro do Pai Maneco me encheu de felicidade, só de pensar na alegria deles juntos dormindo em frente ao congá, nossa fonte de energia e alegria continuamente acessa em nossos corações. A formação destes jovens, sem medo de repreensões como havia no passado,com base na fé, no amor e na caridade sem dúvida transformará esta nossa religião de combate muito mais alicerçada e enraizada no bem maior.
Ainda temos muito chão pela frente na Umbanda e ele tem que ser caminhado com os pés descalços, para que sintamos cada pequena pedra, que deverá ser retirada da estrada para o caminhar dos mais novos. Sou fã do Alexandre Cumino, grande incentivador e propagador de nossa religião. Tudo que ele posta eu replico para minha página do facebook. Porém, a fonte onde bebo brota na Umbanda Pés no Chão do Pai Fernando e gostaria de fazer uma colocação baseada na minha interpretação pessoal, e espero que ao ler isto Cumino entenda que não é só para você, mas para todos refletirem.
Ontem vi uma frase sua, que muitos postaram depois de um curso seu: "A Umbanda é predadora natural da magia negra." É uma frase avulsa, fora de um contexto ,mas em minha opinião é contrária à Umbanda. Somos uma Umbanda de diversos rituais diferentes, idéias diferentes de como funciona o mundo espiritual, mas nossa proposição é a mesma: atingir com fé o propósito da caridade pelo amor ao próximo. Temos muitas batalhas sim, somos lutadores em potencial, mas não predadores de magia negra, porque não nos alimentamos dela. Os predadores na natureza vão atrás do que os alimenta. Nós nos alimentamos da Luz Divina e é com ela que alimentamos quem precisa de consolo, de um pouco mais de fé, de força.
Meu propósito hoje é de dizer a todos que trabalham com os jovens e crianças, que tudo o que fizerem a eles vai ser replicado no futuro,com uma potencialidade muito maior, mais aprimorada. Vou ser sincera: eu tinha medo do Tutu Marambá. Hoje meus filhos para terem medo do Tutu  tenho que dizer que ele é ladrão de playstation. As coisas mudam. Umbanda é pra umbandista, pra quem gosta de axé.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Palavra do Caboclo Pena Branca

Caboclo Pena Branca, imagem intuitiva feita pelo médium Jimmi
Filho de Oxóssi quando vem com uma risadinha no canto da boca, pode contar que vai falar uma piadinha. E veio o Syrus com o tal sintoma: Mamãe quer um chokito? Já sabia qual era a resposta ,mas falei: ah, eu quero sim filhinho! Pois então coloca o "dedito" na "tomadita". Ele estava rindo muito e tive que ensaiar uma risada assim também. Como é bom chegar no mundo agora não é? Tantas piadas "novas" pra escutar e passar adiante....
No dia dos namorados rolava na rede que amor é uma coisa brega, tão brega que precisa de dois,como nas duplas sertanejas. De fato, o amor é algo muito antigo na humanidade e a discussão sobre ele também. Fiz uma grande descoberta hoje sobre ele, mas quero explicar um pouco sobre o contexto.
Dificilmente visito outras giras que não seja a que freqüento, não tenho uma razão exata para isto, mas sou assim. Hoje resolvi quebrar um pouco isto e fui ver uma gira do Pai Beco de Oxóssi, no Terreiro do Pai Maneco mesmo. Amo as giras de Oxóssi, um cheiro de mato misturado à orvalho da manhã, num dia de verão (porque energia pra mim tem cheiro) e uma alegria com relação à vida sem igual. Talvez por isto Oxóssi seja tão ligado à cura e à saúde.Fui falar com o caboclo Pena Branca pedir uma ajudinha, um axé e fazer uma pergunta (lógico). Ainda estou digerindo tudo o que vi e senti. Quando você é iniciante na Umbanda, tem toda uma relação especial com ela, como num namoro, no começo quase é impossível não ser um pouco fanático. Aprendi que com o tempo as coisas se equilibram e tudo tem o seu lugar correto: sua vida social, familiar, profissional e religiosa coexistem sem conflitos.
A história da relação do amor na vida das pessoas dentro das religiões  se desenrolou,muito resumidamente, da seguinte forma: primeiro se alguém fazia algo de ruim para outra pessoa se tornava uma guerra entre famílias ,e a briga se estendia por gerações. Aí, por volta de 1780 a. C., no Código de Hamurabi, veio a Lei de Talião, ou seja, olho por olho ,dente por dente. Se alguém te fez algo você devolve na mesma moeda e acaba aí. Era o dito "castigo-espelho". Anos depois surgiram os dez mandamentos, na Torá, para que as pessoas se harmonizassem e seguissem regras de entendimento comum.
Se você levar em consideração que a primeira Bíblia foi impressa em  1456, pode-se levar em conta que a palavra do Cristo começou a ser mais divulgada a partir desta data .Lá está escrito que seria a partir daquele momento um só mandamento seria usado: Amai-vos uns aos outros. Apesar de simples, levou séculos para ser entendida, pois é de complicada execução e absorção, por incrível que possa parecer, mas está aí a história que não me deixa errar nesta afirmação.
Portanto , na humanidade, o amor ainda está em evolução. O aprendizado do amor , creio eu, envolve várias vidas até chegar em sua plenitude pelo espírito. Perguntei ao Caboclo Pena Branca se ele teria alguma coisa a me dizer, para eu passar aos médiuns de Umbanda.  Havia muitas coisas que ele poderia dizer, então pedi que me falasse a que considerava mais importante no desenvolvimento mediúnico. Falou da importância do equilíbrio de nossos "vícios" como a inveja e arrogância e, de repente, senti que não só seu Pena Branca ,mas muitas entidades próximas. Ele me falou então que a meta do médium , de seu desenvolvimento total, é ser amor, não escolher o que se amará, mas ser amor. Até agora estou emocionada. Ser amor compreende uma vasta possibilidade de afinidades espirituais,  e uma compreensão plena da caridade e da fé. E se amar ao próximo como a si mesmo já é difícil, ser amor é algo que levará mais um bom tempo para ser compreendido. Uma árvore pode demorar anos para dar frutos, então o importante é plantá-la mais rápido possível.
Hoje o Caboclo Pena Branca foi portador da voz da Umbanda como um todo e eu o agradeço muito por este presente, que sei que será utilizado por pessoas não só da minha religião, mas por todos aqueles que buscam, como eu, tornar a fé um meio de sermos um pouco melhores a cada dia, no entendimento da palavra amor. Hoje, em frente ao congá, me senti uma criança chegando ao mundo, maravilhada com as coisas que estou descobrindo. Saravá seo Pena Branca!


Dedico esta postagem À Beatriz Silva e ela sabe porquê.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Umbanda x Fast Food

Seiscentos alunos de quinta e sexta série num mesmo período. Solicitado mais uma vez, lá foi o Syrus defender menininhas indefesas de um tal menino que só corria atrás delas e assustava-as. Disseram categoricamente: Ele está fazendo bullying conosco (porque agora tudo é bullying). Imponente, este pequeno filho, afirmando sua energia do caçador que nunca vai ser caça, chegou para o tal cruel e falou, com o dedo em riste : É melhor que você pare com isto, não tem mais o que fazer? E mais uma vez o pequeno Oxóssi com cara de Justin Bieber, salvou as meninas . Elas, agradecidas, queriam saber se ele conhecia o algoz: Sim é meu irmão! Quando chegar em casa vou contar tudo pra minha mãe ,não se preocupem.
Filho quando começa falando: Veja bem mamãe..... nunca quer de fato que olhemos para a ação cometida. Foi como o Dyogo começou, e ,logicamente terminou falando que não era justo o Syrus se meter na vida pessoal dele, o bullying era contra ele no fundo, mas muito no fundo mesmo. A tal palavra bullying hoje está sendo usada do maternal até o Senado, fazer o quê?
E mais uma vez adotamos uma palavra que servirá tanto para justificar, quanto para acusar. O ser humano está cheio destas palavrinhas que são sacadas rapidamente. E vou falar uma coisa: ou cada ser se define, define suas idéias e concepções sobre verdadeiro ou falso, pratica uma vida pés no chão, ou está fadado a passar o resto de sua vida em conjecturas inúteis. 
Tenho quatro pessoas que amo de verdade com câncer no momento.Uma das melhores coisas que fiz foi ter escutado o Dr. Dráuzio Varela num programa chamado Roda Viva, falando sobre este assunto. Ele simplesmente odeia que falem que uma pessoa se curou de câncer porque tem muita força de vontade. Falou que é inconcebível pensar que alguém não queira se livrar desta doença. Outra coisa muito importante a ser lembrada é a sensação de culpa que se incute no doente.  O câncer é uma alteração genética na célula e ponto. Não se sabe muito sobre ele, mas existe desde que a humanidade existe e tem cura registradas desde o tempo do Egito Antigo, mas cada caso é um caso. A minha fé vê em cada um deles um herói, que cumpre sua função nesta existência, hoje mais rejuvenescidos do que ontem, fazendo algo que deveríamos ter em conta: vivendo um dia de cada vez.
Temos que cuidar dos nossos "falares". Palavras têm força e crescem em proporções por vezes exageradas. Um teólogo chamado Luis Solano Rossi recentemente relançou seu livro "Jesus vai ao Mac Donald's"  falando sobre o consumismo nas religiões católica e protestante, onde cada vez mais o que conta é a transformação de Jesus em produto. Em determinado ponto da entrevista ele fala o seguinte " O impacto se dá em dois momentos. O primeiro é na formação de uma cultura que nega a coletividade, fazendo com que a teologia deixe de ser vista como um instrumento de proteção da vida, principalmente da vida dos mais vulneráveis, para se tornar um instrumento individual. O segundo impacto é que o fiel começa a pensar mais no seu sucesso e bem estar pessoal do que nos outros. Para atender a esse desejo, muitos migram de uma comunidade para outra, seja católica ou protestante, como se fossem lanchonetes de fast-food. Se a pessoa percebe que igreja tal tem uma certa eficiência, se ouve que lá dá resultado, então se muda. Desa­­parece o compromisso com uma doutrina, uma história, uma tradição."
Infelizmente isto não está restrito apenas a  estas religiões. Vejo pessoas  se movimentando entre Terreiros de Umbanda da mesma forma. E cada vez mais se perdem em meio aos seus próprios egos, porque querem alguém que decifre tudo de imediato e acabam por nada entender. Em nenhum momento, nesta minha caminhada me falaram que se eu desenvolvesse minha mediunidade iria me transformar numa popstar, muito pelo contrário. Existe uma linha tênue entre o bem e o mal neste mundo.  Não se pratica a Umbanda sem caridade, sem pensar na coletividade: é impossível. Quem é caridoso não profere palavras que vão contra o prosseguimento da vida, da fé. Com a caridade e com a fé em novos dias, o amor irrestrito passa a ser imperativo nos corações.
O amor , antes de ser algo só poético, constitui-se em um exercício que deve ser praticado todos os dias e uma barreira intransponível para qualquer tipo de mal. Não é fácil sair amando por aí não. Tem que aprender primeiro o que é humildade, depois aprender a observar a beleza que há num mundo onde cada um está num nível diferente, dentre muitos outros itens. Nisso, uso como apoio um pensamento de um filósofo bem conhecido atualmente: o Mario Sergio Cortella. Não nascemos prontos, quem nasceu pronto e envelhece com o tempo é geladeira, fogão.Nós nascemos não-prontos e vamos nos fazendo com o tempo. Isso nunca acaba de fato. Posso amar hoje,mas ainda não sei amar e entender o amor na plenitude.
Caí na palavra que gosto: entendimento. Vão lá no blog do Pai Maneco e vejam quantas perguntas já fiz, além das que tenho guardadas no meu email. Hoje eu entendo que se pergunto cada detalhe mínimo, estou também encerrando ali uma pergunta subliminar: painho, será que consigo passar a mensagem do amor Divino?
Uma amiga assistiu a gira ontem e agora há pouco me falava: Andréa prestei bastante atenção nos atendimentos da entidade que estava com você: entravam muito sérios e saíam leves e sorrindo. Ontem eu consegui deixar a entidade passar a mensagem, bom. Há outros tantos dias pela frente e tanto o que se aprender ainda, que nem dá tempo de ficar enebriada com este passo a mais dado por mim e com certeza por tantos outros.Volto no Cortella: a sensação de felicidade neste caso tem que ter o tempo do cozimento de um miojo: passou de três minutos vira gosma.
A arrogância está aí sendo disseminada e ninguém faz nada. O arrogante não evolui, porque já sabe tudo. Alguém em algum momento tem dizer que o tecido não existe e estamos nus. O médium não pode cair no engôdo de que nunca fará algo errado. Nós, como pessoas além de qualquer religião, não somos infalíveis, antes estamos nesta vida aprendendo a cada minuto. E precisamos pensar no que aprendemos. E, ao contrário disto é o que mais  se propaga nesta rede mundial que habitamos. Se você não entende que está num contínuo processo de aprendizado, em que cada detalhe do seu dia traz um novo conhecimento, como você vai passar isto às gerações mais novas? Notaram que as crianças da cidade já não perguntam tanto? Nem os adultos. Eles simplesmente não tem o que explorar, já sabem tudo.
Um pouco chateada com esta falta de horizontes, deixo aqui um pequeno texto, desejando que todos recuperem a criança que se espanta com a vida e sonha com o inacreditável:
"Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez, Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: -Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia". (Carlos Drummond de Andrade).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Inteligência Oculta

Os cachorros daqui saem latindo como doidos. Pode apostar. Logo atrás deles vai o Índio. Curioso tem que saber o porque de tanto barulho. Índio é o nosso pampa, um cavalo  que tenho lá minhas dúvidas se realmente se acha um cavalo. Estes tempos atrás estava aqui na minha área comendo ração dos cães. Deu um certo trabalho tirá-lo daqui e não tem nada ver esta coisa de que cavalo não sobe escada. Aliás, aqui, além de dar bom dia ao cavalo, é necessário conversar de manhã com ele , senão as minhas rosas é que serão trágicamente exterminadas pela carência afetiva deste cão-eqüino.
Inteligência dos animais e sua percepção me espantam. Como das plantas também. Você já entrou numa mata? Há um silêncio absurdo dentro dela, entrecortado com sons de pássaros. Sempre peço licença pra entrar na mata, que às vezes se faz necessário porque o poço que abastece minha casa é bem no início dela.
 Tudo que pertence à Natureza, especificamente as matas e o reino animal têm a ação da energia  Orixá  Oxossi. Ele que é o conhecedor das ervas e o grande curador. É a essência da nossa vida. O dia escolhido pelos umbandistas para reverenciá-lo é dia 20 de janeiro.
Antes de falar de Oxóssi,gostaria de falar, por curiosidade ,de uma outra comemoração ocorrida no último domingo, dia 23 de janeiro, na religião judaica. Comemorou-se neste dia o Tu BiShvat, . Segundo o Talmud (livro da tradição), representa o Ano Novo das Árvores.
É o equivalente ao dia da árvore e, neste dia, todo judeu deve plantar ao menos uma árvore. O dia 15 de Shvat(mês do calendário judaico) é dedicado ao louvor à Terra (de Israel). O dia é de alegria, pois a terra começa a trazer o período de colheita, a produzir frutos e a exibir seu esplendor, que em Israel nesta época está quase se iniciando a primavera.
É uma tradição que ocorre em todo o mundo judaico. Neste dia algumas pessoas comem sete frutas (pelas sete espécies), outras quinze (por ser dia 15 de Shvat). Alguns comem as frutas como parte de uma refeição festiva, outros as comem separadamente. Há os que comem as sete espécies especificamente, e há os que comem frutas típicas de Israel. As frutas devem ser comidas frescas (para que possam ser abençoadas), mas podem também ser comidas assadas, secas ou açucaradas.
Como os umbandistas e os judeus, há muitas religiões que prestam sua reverência à natureza. Mas o que mais me espantou foi uma entrevista de um cientista chamado Stefano Mancuso, botânico e professor da Universidade de Florença.
Entre nós umbandistas é de conhecimento que as pessoas que estão sob a energia de  energia Oxóssi têm muita inteligência. E a própria energia Oxóssi têm a capacidade regenerativa da cura e a beleza da vida. Então leio o que este cientista escreve: "Se  se define inteligência como capacidade de resolver problemas, as plantas têm muito o que nos ensinar".
Nesta entrevista que vi, o professor/cientista diz que por muito tempo a humanidade não deu atenção às plantas  e há muito pouco tempo se chegou à conclusão que são organismos vivos (tendo como base a história da humanidade). Chegou a citar que no velho Testamento, ao se dirigir a Noé Deus havia dito para ele acolher em sua arca toda criatura que pudesse se mover. Porém, o sinal de que tudo já havia acabado e que Noé poderia descer em terra firme veio através de um pássaro que carregava um ramo em seu bico...
Enfim, na atualidade o cientista Stefano Mancuso desvenda o poder das plantas, que para meu espanto, ocupam atualmente 98% da biomassa de nosso planeta. Espantado também? Ele vai adiante falando que as plantas têm um cérebro, não com neurônios como o nosso, mas com um funcionamento muito parecido. Há alguns anos atrás, foi descoberto que, no ápice da raiz, há uma região chamada de zona de transição, consistindo de poucas centenas de células. Essas células têm um sistema que se assemelha a neuronal. Claro, não existem neurônios, nem têm a forma de neurônios, mas sua funcionalidade e modus operandi é o mesmo.
Isto tudo permite que as plantas se comuniquem entre si, se defendam entre muitas outras coisas.De fato, neste sentido, as plantas são muito mais sensíveis que os animais. Cada ápice da raiz pode ser detectar simultaneamente e continuamente  pelo menos quinze parâmetros químicos e físicos. É algo que os animais não podem fazer.
E aqui entra uma história interessante. As plantas têm a capacidade de alterar seu metabolismo, coisa que nenhum outro ser vivo é capaz de fazer. Têm a capacidade de se comunicar através de moléculas. Cita que em uma região da África, Botswana, havia uma quantidade muito grande de antílopes e poucos exemplares de acácias. Para se proteger do ataque destes predadores em quantidade enorme as plantas mudaram seu metabolismo e começaram a produzir tanino, um veneno muito forte que acabou matando os antílopes e ,lógicamente inibindo o extermínio das acácias. E o que é mais incrível da entrevista e o que nos faz pensar um pouco mais é quando se refere às frutas. As plantas fizeram com que o sabor de suas frutas ficasse cada vez mais apetitosa ao homem. Com isso a possibilidade de se expandir e perpetuar foi quase que inevitável. 
O fato é que as plantas têm uma forma diferente de inteligência que a nossa, tão diferente que não pudemos enxergá-la por séculos. Aproveitando o gancho desta descoberta peço um pouco de reflexão.  Quando se fala que a energia Oxóssi é a energia da cura é na verdade a capacidade de transformação de organismos e almas debilitados em organismos e almas mais fortes. Oxóssi é o lutador pela vida e portanto representa ela mesma. Em outro ponto o cientista fala que uma planta alimentada com uma solução salina a princípio têm um stress. Ela reage a este stress mudando seu metabolismo, coisa impossível aos animais e ao homem. Depois de um tempo recebendo uma solução salina a planta aguenta grandes quantidades de sal como se fosse acostumada a isto.
Temos momentos difíceis em nossas vidas. Momentos em que não sabemos se suportaremos determinadas pressões ou situações. Nestes momentos temos que descobrir a inteligência "oculta" que nossa alma possui. A capacidade de absorver, se adaptar e se regenerar. Oxóssi vem nos lembrar disto. Que há possibilidade de cura, que há possibilidade de vida melhor assim que superamos as "soluções salinas" que encontramos no meio de nossos caminhos.  Não é à toa que Oxóssi é relacionado à mata. 
Superados os problemas e com entendimento sua alma se fortalece, e à medida que você está mais forte é mais doce o paladar de seu conhecimento e assim, fica muito mais fácil ele ser absorvido e partilhado pelo seu próximo. Saravá Oxóssi!


Para ver a entrevista na íntegra sobre as plantas acesse: http://www.rtve.es/television/20101227/redes-raices-inteligencia-plantas/390278.shtml

Um blog excelente sobre plantas e seus poderes medicinais http://coisadeboticario.blogspot.com/

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De Saramago a Oxum


Deveria falar sobre Saramago. Era fã de sua vida. Porque venceu.Venceu o analfabetismo dos pais e foi Nobel da literatura. Painho sempre fala que pra alguém vencer, alguém tem que perder.Oxalá permita que entendam os textos de Saramago como um alerta à hipocrisia religiosa, não como uma ode ao ateísmo, e que o que deve perder-se no tempo é realmente nossa cegueira com relação a Deus.
O foco principal da Umbanda é a vida.A natureza é vida, então é nela que estão as principais fontes que alimentam esta religião.Hoje não consigo mais olhar para a mata sem sentir a energia de Oxóssi, nem deixar de sentir no vento as qualidades de Yansã...Se cada orixá representa uma força para que possamos entender Deus sinto-o perfeitamente.
Saramago dizia não ter encontrado Deus. Não era ateu, porque você só procura o que quer encontrar.A Umbanda me impressiona.Porque as pessoas que ali buscam aconselhamento com as entidades estão de fato procurando Deus, na esperança de que Ele lhes dê sinal de vida e lhe indique um caminho melhor. O quanto de Deus não aparece em cada consulta de cada entidade ali? Como diz meu amigo Ronald a finalidade da nossa vida é a de sermos felizes.É de fato um árduo caminho para cada médium, mas o resultado é incomparável.
Quanto mais amor e mais despreendimento material você tiver em seu caminho pelo bem comum, sendo médium em qualquer religião, mais protegido você estará, inclusive de você mesmo. O grande problema das religiões são as disputas internas.A vida deve ser preservada, então, devido à evolução material que sofremos, temos um instinto de preservação meio confuso. Confuso porque não temos que atacar ninguém para permanecermos vivos.Ficar em evidência ,às vezes, é a forma mais fácil de se tornar um alvo.
Uma gira de Umbanda produz uma luz imensa por vários fatores, mas nenhuma luz é forte o suficiente quando deixamos as trevas se apoderarem de nossos corações e de nossos ideais. O ego infeccionado se fortalece em um tripé: vaidade, medo e insegurança e ele contagia.Tome cuidado.
Numa leitura de I Ching feita por minha amiga Claudia Boechat em seu blog Champanhe com Torresmo, ela diz que é hora de emborcarmos o caldeirão. Concordo. Temos mesmo que limpar o caldeirão onde fervilham nossas idéias e recomeçarmos a cozinhar algo que realmente alimente nossas almas e dos outros. Não podemos servir o que não temos para comer.
As religiões de uma forma geral têm grandes inimigos a combater que são os vícios, a depressão, a solidão, o desespero das perdas...E devem se concentrar no propósito do amor e do respeito ao próximo. Ficar em disputas de quem pode mais não leva a nada. Bem como os fiéis de cada religião se perderem seu tempo em disputas pessoais de poder e sabedoria acabarão como cegos e , até onde sei, soldado não comanda soldado.
Antes de você bater no peito afirmando que é um Umbandista maravilhoso, um evangélico ungido, ou um ateu convicto, olhe a estrada pela qual seus pés já pisaram e veja se os seus passos são realmente firmes o suficiente para tal convicção.E sempre se lembre de que o que você crê ser certo, pode não ser a verdade do seu próximo então sempre tenha em mãos o espelho de Oxum, que mostra o outro lado.

Desejo que o calor do amor divino invada a vida de cada um de vocês.