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terça-feira, 8 de março de 2011

Ritual Secreto

Uma das coisas que acho impressionantes por aqui são os cães e as crianças. Algumas vezes, pego uma carona no onibus escolar e umas das cenas mais bonitas que já vi foi no percurso de volta. Há um ponto onde descem várias crianças, num pequeno aglomerado de casas. Nesta esquina, você pode avistar de longe vários cães sentados . Quando o onibus chega e as passageiros se dispersam rumo às suas casas, cada cão segue a "sua" criança .
Dificilmente há cães em coleiras por aqui.Muito menos com relógios. Uma vez o ônibus se atrasou, por problemas na estrada, e os cães ficaram muito agitados. Por aqui todas as crianças sabem os nomes dos cães que circulam livremente, mas tem seus donos. O pessoal da cidade, infelizmente, numa época de férias ou de feriado prolongado, não sabendo com quem deixar seus cachorros por vezes vem soltá-los por aqui. A maldade não escolhe nível de evolução.
Já que estou tratando de assuntos delicados, vou me estender em mais um. Cheguei a conclusão que somos hoje como os cães que esperam na esquina, mas já nos esquecemos do objeto de nossa espera. O Brasil ainda começa depois do carnaval, mas porquê? E outra, mais dura, eu queria saber o porquê dos umbandistas, alguns, ainda temerem a quaresma.
A quaresma é um período adaptado pela Igreja Católica para que o povo da antiguidade esquecesse dos ritos ditos pagãos. A real quaresma era um periodo pagão de 14 séculos antes de Cristo, um ritual de purificação que ocorria antes de se fazer as oferendas às divindades da natureza ,para que houvesse a ressurreição da terra no início da primavera e assim, uma colheita farta.  Hoje a data da Páscoa é definida da seguinte forma: é comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte, e do outono no Hemisfério Sul. Esta lua cheia é hipotética, se você se der ao trabalho de ir conferir. A igreja, para obter consistência na data da Páscoa, decidiu, no Conselho de Nicea em 325 d.C., definir  a Páscoa através de uma Lua imaginária conhecida como a “lua eclesiástica”.
Alguns umbandistas acham que neste período pessoas de má índole praticam ainda mais maldades. Pois eu digo a vocês que não há período para se fazer o mal e se vocês querem ficar alertas, o façam durante o ano todo. Adaptando a frase seria: Girai e vigiai!
Um cara genial , que se tivesse nascido por estes lados seria um grande umbandista, era o escritor Jean de La Fontaine (8 de Julho de 1621 - 13 de Abril de 1695, Paris). Foi um poeta e fabulista francês que estudou Teologia e Direito e que acabou por assumir o trabalho paterno como inspetor de águas e florestas. Ele falava o seguinte: "A excessiva atenção que se presta ao perigo faz que muitas vezes nele se caia."  Ora, se você pensa que nesta época as coisas estão"pesadas", seu poderoso cérebro dará um jeito de que sua fé não seja em vão, então as coisas podem ficar realmente "pesadas". 
Os rituais são indispensáveis em qualquer religião e até no nossso dia-a-dia. Somos seres ritualísticos, mas não podemos esquecer nossos propósitos. Você deve ter todo um ritual  antes de sair para trabalhar e , durante ele, todo o seu processo produtivo vai se desenhando em seu cérebro. O que não podemos esquecer nunca é a finalidade do ritual.
Somos todos humanos falíveis. Todo umbandista tem um defeito: aquela pontinha de orgulho, quando realiza a ponte entre o espiritual e o material de uma forma tão boa que auxilia pessoas a encontrarem a saída de seus labirintos pessoais. Nenhum de nós vai falar que há uma época mais propícia para se fazer o bem, fonte de nosso prazer pessoal: ele deve ser realizado todos os dias.Por que então o mal teria um período só para ele? Seria muito fácil de combater. 
Umbanda exige raciocínio, porque é uma religião livre de dogmas. Liberdade requer responsabilidade sempre. Já devo ter falado milhares de vezes neste blog, mas sempre é bom repetir: Pai Maneco sempre fala que a Umbanda se aprende no Terreiro e se pratica na vida. É através do equilibrio das forças da Natureza que praticamos nossa fé em Deus.
 La Fontaine falava que se quisermos tocar o coração dos homens devemos sempre contar histórias que envolvam animais ou Deuses e que isso despertaria, suave e docemente, a consciência deles. Então eu digo a vocês que cada cão que espera sua criança aqui perto, não está incomodado em saber que época do ano é, o seu objetivo é cuidar sempre do que ama. Por outro lado gostaria também de falar , que quando resolverem cuidar de um cão lembrem desta história e de quanto sentimento seu animal nutre por você, antes de pensar em jogá-lo fora de forma irracional.

As fotos postadas aqui hoje são uma homenagem à simplicidade da Umbanda. Foram captadas pelo fotógrafo Marc Ferrez no final do século XIX e representam uma criança indígena de uma tribo do Mato Grosso de Sul e três mulheres quitandeiras e quituteiras (em homenagem também ao dia da mulher), logo após a abolição da escravatura no Brasil.

sábado, 11 de setembro de 2010

Sagrado



Já escreveu sobre os índios mamãe? Nas últimas semanas é o que mais escuto do meu filho do meio. O questionamento dele é que se eu quero falar de religião brasileira teria que falar de índios sempre.Ele não é muito de falar, mas sei que ama os índios e os respeita. Quando pequeno, com uns dois meses, fiz o anagrama de seu nome (que significa rearranjar as letras do nome e formar um outro) e resultou em: Índio desenha fogo. De fato não só desenha, como também onde puder está lá ele lidando com tal elemento. Diz que vai ser biólogo e ,quando a lei permitir, vai caçar também pois gosta de cozinhar.Se você está pensando em encarnações passadas esqueça, porque de fato não importa: hoje meu filhotinho é um índio brasileiro, mais um conectado à tribo mundial de computadores.
Um dia fui numa tribo Guarany. Uma das maiores experiências de minha vida. Em conversa com o cacique ele nos conta a experiência de um dos integrantes da aldeia. Comunicou que havia se tornado evangélico e não mais participaria dos cultos deles. Todos eles são livres. Um dia veio uma grande tempestade e um raio caiu ao lado da casa deste índio, que imediatamente saiu no meio do terreiro para pedir desculpas a Tupã. Não se pode negar a essência. E eu devo confessar que depois que participei do ritual deles nada mais teve a mesma cor para mim.
Diga para mim: onde os índios aprenderam a dançar? Onde eles aprenderam música? De onde vem tanta religiosidade? Posso estar errada, mas fico pensando se dançar, cantar e crer em Deus não é uma necessidade básica da alma do homem. Eles aprenderam a caçar e plantar para se alimentar, para permanecerem vivos e saudáveis. Acredito que a religião surgiu entre eles pelo mesmo motivo.
Estes dias uma amiga me perguntou se nós umbandistas acreditávamos em um Deus único. Expliquei a ela sobre as energias Orixás como cada aspecto de um Deus único. Confesso que gostaria de ter dado a ela um pouco mais do que todos já sabem. Como nenhum desejo sincero cai no vácuo na Umbanda, fui agraciada ao ler uma mensagem muito esclarecedora postada pelo pai de santo Ricardo Barreira e pronunciada pelo seu pai de cabeça , a entidade Pai Tupiniquim : “Quando o homem conseguir sentir-se tão parte da natureza como uma pedra ou como um rio, aí então ele encontrou o sagrado.”
Será que seria este o grande segredo dos índios? Será que lá atrás no tempo onde não havia contato com o mundo ‘civilizado” eles não eram parte dos rios, das pedreiras e das matas? Não seriam eles as próprias cachoeiras e onças selvagens? As águias que voam nas planícies e os peixes que movimentam os rios?
Aqui virou uma rotina. Quando aparece uma águia, que tem costume de sentar numa árvore alta e ficar olhando aqui para casa, os meninos vem me avisar: mamãe o caboclo Akuan veio nos visitar. Talvez quando eles crescerem percebam que isto tudo é muito mágico, mas por enquanto tratam isto com uma naturalidade absoluta. E meus filhos sabem que a águia só aparece quando precisamos, é instintivo. Se sentem bem e protegidos.
Tudo isto me leva a um questionamento. Nós , cidadãos civilizados, fazemos parte do que? Que natureza é essa nossa? Uma pessoa andando num centro movimentado de uma grande cidade é algo tão solitário e triste, no meu ponto de vista. Depressão é palavra da moda e tomar remédios para baixar a ansiedade é algo tão comum, que sinceramente creio que a humanidade nos tempos atuais se assemelha a um grande campo de órfãos. Precisamos consumir e consumir, e assim passamos nossa existência nos consumindo. Não se enganem pois amo tecnologia. É extremamente necessária. O que perdemos foi nossa ligação com o sagrado.
Esses dias os meninos vieram correndo para dentro, mas antes mandaram os filhos do caseiro irem para casa também. Haviam escutado no mato uma ave diferente e tinham certeza absoluta que era o saci. Falei que ia lá fora ver e eles me pediram para não ir, pois conforme me explicaram o saci chama as pessoas curiosas pro meio da mata com este canto. O melhor que eles tinham a fazer era ficar na internet até o saci cansar e ir embora.
Se era o saci não sei mas vou dizer a vocês que se puderem, em vez de ir ao shopping levem seus filhos perto da mata. Não em parques onde tudo esteja à mão. Molhem seus pés num riacho, prestem atenção nos sons que vêm da mata. Experimente sentir o som de seu coração neste momento.E ali no meio do silêncio acolhedor da natureza, no seu reencontro com o sagrado espero que suas perguntas e sua solidão sejam dissipadas pelo abraço do Divino.








Na atualidade os indios brasileiros precisam de muito apoio. Uma grande defensora deles e uma pessoa que tenho a certeza ter encontrado o sagrado é a Professora Maria Rachel Coelho. Você pode ajudá-los e conhecer mais contactando-a. A foto ao lado é para que vocês vejam o quanto esta pessoa tem luz!



quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Sobrenatural e a Magia Real


Pediram que eu falasse um pouco das coisas sobrenaturais. Isso para mim, é praticamente impossível. Não consigo falar sobre as coisas terríveis que o homem pratica contra a Criação, incluindo contra ele mesmo neste rol de atrocidades, simplesmente porque não entendo. Sobrenatural é a capacidade que as pessoas têm em se envolver e praticar atos abomináveis. Realmente não tenho o dom de ser repórter policial. Quem sabe em outra vida?
Nisto não incluo os erros que praticamos sem querer. Nós todos, sem exceção mesmo, erramos. Mas ,quando se tem bom coração, até os erros nos levam a descobertas. Simplesmente porque errar é natural. E tudo que é natural envolve uma certa magia. E o ser humano é detentor de uma série de dons mágicos que desconhece.
O primeiro no meu entender é sua vontade de desvendar Deus, seja pelas religiões ou mesmo pelo ateísmo. Ansiamos entender esta energia que nos faz transpor nossos limites e buscar as verdades. Tenho uma amiga que diz que no momento está apenas guardando as verdades. Achei justo. Manter as verdades perto da gente é eficaz para nossa humildade.
O segundo poder inerente a qualquer ser humano é a capacidade de sentir. Sentir e processar este sentimento. Não é tão fácil, mas útil também. De coisas pequenas, como saber o que se sente quando se toca no fogo ou se nada numa piscina gelada. E das coisas grandes como amores novos que se aproximam e das tempestades que chegam no horizonte. O sentir precede qualquer ação. Ele é mágico, portanto não despreze seu sentir, antes purifique-o. Retire dele todo e qualquer traço de egoísmo, pois como Paracelso escreveu o diabo existe e seu verdadeiro nome é EGOISMO.
Não acredito em pensamento positivo. Porque se você tem um positivo, em algum lugar aí dentro de você tem o negativo. A natureza é perfeita, não a despreze nunca. Tudo tem dois pólos, é o equilibrio.E aqui chego ao terceiro poder: a Fé. Na fé, não há positivo nem tão pouco negativo. A fé é. Fé é tudo aquilo que você acredita que de alguma forma, possui força para impulsionar uma ação.
O quarto poder, que é a base do seu espírito, é a consciência. A voz que te direciona e que permite que você escute outras vozes da sabedoria. Osho diz que quando você está com dificuldade de se tornar consciente de algo deve parar de pensar e tomar chá. Deixando de agir com o ego, tomando consciência, as nuvens se dissipam e você enxerga mais longe. A Paulinha minha amiga lá de Santos, faz um chá e toma em companhia da preta -velha dela. Sempre é bom uma companhia que te inspire.

Estes são quatro poderes naturais em que a pirâmide de sua vida pode se alicerçar sem medo. Aliás o medo é o contraponto da vida, esqueça-o de forma veemente. Para viver precisamos de uma baita coragem e muito, mas muito bom humor. Principalmente com a gente mesmo. E com bom humor, vibrando alto, acredite você ou não, só energias boas se aproximam, tanto pessoas deste plano como entidades.
Achei este pequeno pensamento de Paracelso que pode ser aplicado a várias situações nesta vida: "Ponderei comigo mesmo que, se não existissem professores de Medicina neste mundo, como faria eu para aprender essa arte? Seria o caso de estudar no grande livro aberto da Natureza, escrito pelo dedo de Deus. Sou acusado e condenado por não ter entrado pela porta correta da Arte. Mas qual é a porta correta? Galeno, Avicena, Mesua, Rhazes ou a natureza honesta? Acredito ser esta última. Por esta porta eu entrei, pela luz da Natureza, e nenhuma lâmpada de boticário me iluminou no meu caminho". Pelas portas da Natureza encontrei meu caminho e por ele vou seguindo. Obrigada pela companhia! Saravá!