Ainda me lembro do velho Kaminski entregando pão lá em casa, numa carroça, e me dando bolacha de polvilho para experimentar. Lembro também da minha mãe grávida da minha irmã mais nova, e eu olhando para aquela barriga e pensando que o nenê devia estar lá sem ar nenhum. Lembro das árvores da minha casa, lembro de meus irmãos e eu juntando maçãs para o strudell, peras e pêssegos para as sopas de frutas. Lembro do primeiro ônibus expresso que peguei em Curitiba, muito mais devido à uma abelha que me picou atrás da orelha do que o ônibus em questão. Lembro das pequenas e das grandes coisas e vejo, conforme o tempo caminha, que as lembranças vistas de um ponto diferente na história , apesar de continuarem as mesmas ,têm novas cores.
Creio que as pessoas deveriam ser respeitadas em primeiro lugar porque são um depósito vivo de memórias, que de uma hora para outra vêm à tona para auxiliar os mais novos, ou resolver situações das mais diversas. Principalmente a maior de todas as ilusões: a de que o que você está passando no momento, nunca vai acabar - ou pior- de rotular esta situação como boa ou ruim, coisa que só o tempo pode nomear.
Sempre tive uma admiração muito grande por amigos do meu pai , que discutiam coisas que eu não entendia sobre o crescimento da cidade e do seu passado. Na verdade, eu não gostava de um, que insistia em chegar na minha casa ir direto para o porão e , com um cabo de vassoura, ficar batendo no chão e nos chamando de bruxinhos. Minhas memórias, assim como de cada ser , são os elementos fundamentais do que sou hoje. Até os detalhes, como a figura enorme na minha sala do barqueiro do inferno, feita por Doré e ampliada pelo meu pai, até o arco e flechas penduradas na parede da mesma sala, com negativos e fotos por todos os lados.
Foi a primeira vez que trabalhei junto com uma preta velha. A senhora sentou à sua frente e ela a reconheceu de imediato. Ficou comentando algumas passagens da infância daquela senhora. Como sempre fora arredia aos benzimentos daquela preta entre tantas outras coisas pessoais que falou. Alguns dias depois, soube que a avó daquela senhora teve um terreiro em Goiânia e recebia uma preta que a benzia e que tudo que foi falado condizia com o que havia ocorrido. Fiquei pensando muito sobre isto e acredito que só o fato de haver alguém, neste ou no outro plano, que saiba quem realmente somos e que compartilhe das mesmas lembranças já é um alento e elemento fundamental de cura.
Criamos vínculos com as entidades, sejam elas parceiras no trabalho dentro das giras ou fiéis ouvintes das nossas angústias e alegrias. Embora não tenham um corpo físico visível, são da mesma matéria espiritual do que as nossas, guardam em seus corações espirituais lembranças do que eram e do que fomos. Possuem sentimentos, e têm um entendimento das situações muito maior do que os nossos. Merecem nosso respeito - demonstrado quando nos entregamos junto com eles ao propósito umbandista, sem limitações como o orgulho e a intolerância.
Como a Umbanda é nova, temo que às vezes as pessoas queiram inovar demais, ou melhor, serem indicados como 'promotores' da inovação na Umbanda, para ficarem na memória. Ledo engano. Quem fica na história é quem consegue lidar melhor com a ligação entidade- médium e auxilia a uma comunicação e atendimento cada vez melhores. Já citei diversas vezes o Pai Fernando Guimarães aqui, hoje vou citar uma mãe de santo lá de Goiânia,Raquel Elcain, com também vários anos de religião, que postou uma experiência dela neste blog- na postagem Mocidade na Umbanda: " Isto me faz lembrar da minha filha Rafaela, também minha filha no santo, quando começou seu desenvolvimento, ao receber a preta velha para atendimento, no término dos trabalhos ela dizia assim: mãe a tia Anastácia passa umas ervas para as pessoas e eu não consigo falar, eu não entendo, não sei que ervas são, tenho medo pois são nomes que nunca ouvi falar. Sempre ensinei aos meus filhos no santo tudo que sei, jamais omiti qualquer ensinamento e, com ela, não pode ser diferente. Peguei um livro “o poder das ervas” e disse: estude. Quem sabe você entenda e ouça melhor a mãe preta. Cada história de cada ser humano daria um livro, uns maiores, outros menores, mas repletos de conteúdo. Os melhores conteúdos são aqueles em que a coragem prevalece - elemento primordial para evolução- bem como o amor compartilhado e o aprimoramento do espírito na simplicidade. Espero sinceramente que eu possa ter trazido a você que me lê, boas lembranças de sua infância e que com elas sua semana seja bem melhor!
